Santa Teresa e a morada Divina

santa-tereza-avilajpg926062013153748Santa Teresa, escreveu muito, não por vontade própria mas por ordem dos seus confessores e superiores. Os seus escritos têm como tema central a sua experiência de Deus. Deixou-nos uma ampla doutrina e conselhos para a vida espiritual. As principais obras, carregadas de humanismo e vivacidade, são: O livro da Vida, Caminho de perfeição, Castelo Interior ou Moradas, Fundações, Cartas, Poesias e outros escritos menores. Devido ao  V Centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus (1515- 2015), vamos fazer uma  pequena reflexão  sobre as suas obras:

Castelo Interior da alma ; lugar da morada Divina.

Quem não gostaria de ter uma casa ou, ainda, de possuir um enorme castelo? Pois segundo Santa Teresa temos esse castelo do qual sonhamos ou, poderia-mos imaginar, dentro do nosso coração, para que Deus possa fazer sua morada e os seus deleites.
A principal morada desse castelo da alma é a mais interior e central do íntimo encontro entre Deus e a pessoa.
Santa Teresa descobriu, por experiência própria, que o caminho para Deus passa pelo auto-conhecimento; mas entretanto, se não conhecemos a Deus nunca saberemos quem somos.
Quem não conhece a alma humana, não sabe quão linda ela pode ser aos olhos de Deus e nem se esforça para conservá-la na sua beleza original. Seria como alguém que recebeu uma casa de herança, mas não foi avisado e passa todos os dias na frente da casa e apenas contempla os muros e a pintura externa sem nunca entrar ali, pois nem sabe que aquela casa lhe pertence. Assim, lamentavelmente, é a alma de quem apenas quer saber de cuidar do próprio corpo, que é a parte exterior do Castelo da alma, e não se interessa pelo interior, onde estão os tesouros mais belos e valiosos à ser descobertos.
Devemos levar em conta a fragilidade de nos seres humanos, que hoje estamos vivos e amanhã não sabemos , o dia nem a hora morreremos, o corpo perece mais a alma tem vida eterna.
Ao deixar o tempo passar sem cuidar da própria alma, o estado interior da pessoa vai piorando, afastando-se da graça e deixando que os vícios e os pecados ganhem espaço. Seria como uma casa da qual ninguém cuida, onde os insectos se multiplicam à vontade, enquanto a pintura descasca, os canos enferrujam e o cheiro piora a cada dia.
Não há palavras ou imagens que possam descrever a beleza e a dignidade da alma. Mesmo essa comparação do castelo de diamantes valiosíssimo parece insuficiente. Entretanto, é suficiente dizer, com as Sagradas Escrituras, que fomos criados à imagem e semelhança de Deus.
Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança e o conhecimento deste fato, pela fé, já nos instala na realidade da situação em que vivemos. E, nesse amor criador, Deus estabeleceu as moradas da alma. Deus se manifesta onde quer e como deseja, conforme os seus desígnios. Ao testemunhar tais maravilhas do Espírito Santo que habita uma alma, mantendo íntima união com uma pessoa, devemos louvar a Deus. É realmente impressionante que Deus queira doar-se intimamente às pessoas nas moradas das almas, considerando a pequenez e as misérias humanas.
Entretanto, acreditamos que para Deus nada é impossível. Pela fé sabemos que o  Senhor é capaz de transformar tudo , e todos, e fazer tudo que ele diz que faria, segundo a sua vontade.
Reconhecer a existência do seu Castelo interior é o primeiro passo, mas como encontrar essas moradas maravilhosas , dentro de nós mesmas, as vezes o nosso interior esta mais confuso que o exterior. Esta pergunta é espontânea, mas não deixa de ser estranho que alguém não saiba como entrar dentro de si mesmo. Se já estou dentro de mim mesmo, como poderia sair do meu próprio interior? Ora, toda a pessoa, como consequência do pecado, possui a experiência de, em algum momento, afastar-se do próprio centro da alma. Isso acontece quando se está muito voltado para fenómenos exteriores, como as preocupações do mundo , dinheiro emprego ou estéticas, moda, e aparência, nesse ponto perde-se a referencia do interior que fica no segundo plano da vida pessoal. A alma fica vazia, fraca sem existência pobre e sem a luz de Deus, que já não tem o primeiro plano nessa existência humana.
A chave deste Castelo interior belo como os dos contos de Fada, é a oração e a reflexão; quem não reza não possui a chave da própria alma, fica fechado do lado de fora . Seria como alguém que chega a casa à noite, mas não encontra a chave por causa da escuridão e não consegue entrar na casa, sendo obrigado a dormir do lado de fora, sujeito aos ataques dos insectos e animais de hábitos nocturnos e, pior ainda, sendo vítima fácil dos criminosos que vagam pela noite procurando alguém para atacar.
Contudo , a alma é mais do que uma casa, ela é algo vivo, pois é parte da nossa vida como um todo. Sem a alma estamos aleijados, deficientes, mancos. Quem não conhece a própria alma e não reza é como um paralítico, cujos pés são incapazes de andar. Quem não entra na sua alma, mas vive apenas focado em coisas exteriores está doente espiritualmente . E de tanto deixar de lado os aspectos mais humanos da vida, isto é, aquilo tudo que está no interior da alma, acaba desumanizando-se.
A oração verbal e mental é a chave da entrada da alma , oração com reflexão, considerando, a quem pede e, como pede e, para que pede. Quem apenas fala ou pensa sem prestar atenção às próprias palavras, não esta a rezar. Não adianta só mover os lábios sem considerar o que esta dizendo , repetições sem sentido não chegam ao Céu, nem repercute na alma. Se me coloco na presença de Deus, não posso distraidamente falar com Ele, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores, como se estivesse repetindo algo sem pensar.
Em todas as dificuldades Santa Teresa , recomenda-nos coragem fidelidade e perseverança. Para conhecer a vida de Deus na alma humana, é fundamental revestir-se de uma determinação e não desistir enquanto não se chegar humildemente à meta.

santa-teresa-de-avilaAnalogia do Castelo Interior:
O Castelo é o cenário que se abre, apresentando o lugar teológico do encontro de Deus com a alma:
”Falo de considerar a nossa alma como um castelo todo de diamante ou de cristal muito claro onde há muitos aposentos, tal como no Céu há muitas moradas. A bem da verdade, irmãs, não é outra coisa a alma do justo senão um paraíso onde Ele disse ter Suas delícias. Pois não achais que assim será o aposento onde um Rei tão poderoso, tão sábio, tão puro, tão pleno de todos os bens se deleita?
Não encontro outra coisa com que comparar a grande formosura de uma alma e a sua grande capacidade. De fato, a nossa inteligência- por aguda que seja – mal chega a compreendê-la, assim como não pode chegar a compreender a Deus; pois Ele mesmo disse que nos criou à Sua imagem e semelhança.
Se assim é- e não há dúvida disso-. não há razão para nos cansar buscando compreender a formosura deste castelo. Pois, ainda que entre ele e Deus exista a diferença que há entre Criados e criatura- já que esse castelo é criatura-, basta que a Sua Majestade diga que fez à Sua imagem para que possamos entender a grande dignidade e formosura da alma.”(1M1,1)
Esse enredo da analogia de Teresa é apresentado de forma dinâmica e transformante canalizando tudo para o encontro com Deus.
Como vimos  a primeira porta de entrada Santa Teresa diz que é a oração:
”Pelo que posso entender, a porta para entrar nesse castelo é oração e reflexão. Não digo oração mental mais do que vocal; para haver oração, é necessária a reflexão. Não chamo oração aquilo em que não se percebe com quem se fala e o que se pede, nem quem pede e a quem; por mais que se mexam os lábios, não se trata de oração. E, se algumas vezes o for, mesmo sem cuidado, será por motivos que se justificam.”(1M2,7)

A estrutura do Castelo é muito preciosa:
”Antes de passar adiante, eu gostaria que considerásseis o que será ver esse castelo tão resplandecente e formoso, essa pérola oriental,  essa árvore de vida plantada nas próprias águas vivas da vida, que é Deus, quando cai em pecado mortal. Não há treva tão tenebrosa, nem coisa tão escura e negra que se lhe compare”.(1M 2,1)

A estrutura teológica e  o diálogo entre Deus e a alma:
”Consideremos portanto que esse castelo tem, como eu disse, muitas moradas, umas no alto, outras abaixo, outras dos lados. E, no centro, no meio de todas está a principal, onde se passam as coisas mais secretas entre Deus e a alma”. (1M 1,3)

Sem fé não se admira as maravilhas de Deus:
”Assim me parece ser uma alma que, embora não esteja em mau estado, está tão envolvida em coisas do mundo e tão mergulhada em dinheiro, nas honras ou nos negócios- como tenho dito – que, ainda que de fato deseje ver e gozar sua formosura, não o consegue e não parece desenvencilhar-se de tantos impedimentos”.(1M 2,14)

Os sentidos são os vassalos da alma:
”Os primeiros aposentos ainda obrigam pessoas muito absorvidas pelo mundo, engolfadas nos contentamentos e desvanecidas com as honras e pretensões. Assim sendo, não têm força os vassalos da alma- que são os sentidos e faculdades naturais que Deus lhe deu-, sendo essas almas facilmente vencidas, embora nutram desejos de não ofender a Deus e façam boas obras”.(1M 2,12)

 Não se chega  a morada principal sem a vida ascética:
”Para entrar nas segundas moradas, convém abrir mão das coisas e negócios não necessários, cada um de acordo com seu próprio estado. Isso é tão importante para se chegar à morada principal que, se a alma não o começa a fazer, considero impossível a empreitada, sendo difícil até mesmo manter-se sem perigo nos primeiros aposentos, entre animais peçonhento, que não a deixarão de morder uma vez ou outra.”(1M2,14)

Enfim Santa Teresa de Jesus convida-nos a todos a praticar as virtudes para chegar à união com Deus.diz:” Confie na bondade de Deus, que é maior de que todos os males que podemos fazer e não se lembra da nossa ingratidão, quando, reconhecendo o que somos, queremos voltar à Sua amizade. Lembre-se das suas palavras e vejam o que fez comigo; mais me cansei eu de O ofender, que Sua Majestade de me perdoar. Nunca Ele se cansa de dar nem se podem esgotar Suas misericórdias; não nos cansemos nós de receber. Seja bendito para sempre, ámen, e louvem-n’O  todas as criaturas”. (V2.13-15)

Alcançar a união com Cristo:
Teresa de Jesus, foi uma mística fortemente provada no sofrimento, na doença e nas numerosas dificuldades, das contradições do trabalho na sua vida espiritual, e em toda a sua obra como fundadora, perseguição e difamação, uma mulher com a força do Espírito e provada durante toda a sua vida. Mestra da oração, nos adverte para a importância de abraçar a cruz de Cristo, no seguimento da radicalidade da vida de um crente. ”Quem quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, carregue a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).

Sem esse desprendimento mais o arder do coração e a oração, o crente paralisa. O sofrimento e a consequência da qual o caminhante não pode evitar, nas pegadas de Cristo.Entretanto experimentamos uma liberdade interior, uma alegria e uma consolação que alimenta a alma da sua sede de buscas exteriores. Não podemos encontrar Páscoa sem cruz, devemos decidir quem é o centro de nossa vida, se o Cristo ou nos mesmos. Santa Teresa nos convida a viver o sofrimento, como união salvadora na paixão de Cristo, o amor e a dor que nos purifica como no crisol .
A cruz do Senhor não é acidental nem um acontecimento separado, mas consumação de toda a vida de Teresa e sua missão, transformando-se centro do seu amor pessoal, esponsal com Cristo.
A mística de se unir a Cristo, é participar da sua vida e missão. É viver junto a Ele amando como Ele amou, sofrendo como sofreu, perdoando como Ele perdoou, ou seja compartindo os seus sentimentos, sua entrega seu olhar, seu amor, servindo e seguindo o seu projecto de salvação.
Diz-nos Santa Teresa: ”Ponde os olhos no Crucificado, e tudo se vos fará pouco. Se sua Majestade nos mostrou o seu amor com tão espantosas obras e tormentos, como quereis contentá-Lo só com palavras?  Sabeis o que é ser espiritual deveras? É fazer-se escravos de Deus, para que marcados com o seu ferrete que é a cruz, pois já lhe deram a sua liberdade- os possa vender por escravos a todo o mundo, como Ele o foi; e não lhes faz nenhum agravo, nem pequena mercê. E se isto não se determinam, não haja medo que aproveitem muito, porque de todo este edifício- como já disse- é fundamento a humildade”(7M 4,9).
Seguir os seus passos levará, de um modo ou de outro, a subir o próprio Calvário, mas é uma subida por amor, dando a vida por quem deu seu sangue por nós primeiro.

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