O fumo do mal

saomiguel1Papa Paulo VI, alguns anos depois do Concílio Vaticano II, à vista dos acontecimentos que sacudiam a Igreja, disse: – “Pensava-se que, depois do Concílio, o sol brilharia sobre a história da Igreja. Mas, em vez do sol, apareceram as nuvens, a tempestade, as trevas, a incerteza”.
“Interveio uma potência hostil. Seu nome é o demónio, esse ser misterioso de quem nos fala São Pedro na sua primeira Epístola. Quantas vezes não se refere Cristo, no Evangelho, a este inimigo dos homens?” Nós cremos que um ser preternatural veio ao mundo precisamente para perturbar a paz, para afogar os frutos do Concílio ecuménico e para impedir a Igreja de cantar a sua alegria por ter retomado plena consciência de si própria”. Para dizê-lo brevemente, o Papa tinha a sensação de que “o fumo de Satanás entrou por alguma fenda no templo de Deus”
Sobre essa crise, logo de inicio sublinhou, as necessidades mais importantes da Igreja, que é defender-se desse mal que designamos por demónio. A seguir, recordou a doutrina da Igreja sobre a presença no mundo de “um ser vivente, espiritual, pervertido e perversor, perversor, realidade terrível, misteriosa e temível”. Afirmou:- “Separam-se do ensinamento da Bíblia e da Igreja aqueles que se negam a reconhecer a existência do diabo ou aqueles que o consideram um princípio autónomo que não tem, como todas as criaturas, a sua origem em Deus; e também aqueles que explicam como uma pseudo-realidades, uma inversão do espírito para personificar as causas desconhecidas dos nossos males”.
“Nós sabemos – prosseguiu o Papa – que este ser obscuro e perturbador existe verdadeiramente e actua sem descanso com uma astúcia traidora. É o inimigo oculto que semeia o erro e a desgraça na história da humanidade. É o sedutor pérfido e obstinado que sabe insinuar-se em nós através dos sentidos, da imaginação, da concupiscência, da lógica utópica, das relações sociais desordenadas, para introduzir nos nossos actos desvios muito nocivos que, no entanto, parecem corresponder às nossas estruturas físicas ou psíquicas ou às nossas aspirações profundas”.
Satanás sabe insinuar-se… para introduzir… Estas expressões não nos lembram a advertência de São Pedro sobre o leão que ruge e ronda, buscando a quem devorar (cfr. 1 Pe 5,8) ? Para se apresentar, o diabo não fica à espera de que o convidem, antes impõe a sua presença com uma habilidade quase infinita.
O Papa evocou também o papel de Satanás na vida de Cristo. Ao longo do seu ministério, Jesus qualificou três vezes o diabo como príncipe deste mundo (Jo 12, 31; 14,30; 16, 11), tão grande é o seu poder sobre os homens.
Paulo VI empenhou-se em apontar os indícios reveladores da presença activa do demónio no mundo. Voltaremos a falar deste diagnóstico.

A visão do Papa Paulo VI
Era um dia de Dezembro de 1884 ou de Janeiro de 1885, no Vaticano, na capela privada de Leão XIII. Depois de ter celebrado a missa, o Papa, como de costume, assistiu a uma segunda missa. Lá pelo fim, viram-no levantar a cabeça de repente e olhar fixamente para o altar, acima do tabernáculo. O seu rosto empalideceu e as suas feições tornaram-se tensas. Finda a missa, levantou-se para o seu quarto de trabalho. Um dos prelados que o rodeavam perguntou-lhe: – Santo Padre, sentem-se cansado? Precisa de alguma coisa?
– Não – respondeu Leão XIII -, não preciso de nada…
O Papa encerrou-se no seu escritório. Meia hora mais tarde, mandou chamar o Secretário da Congregação de Ritos. Estendeu-lhe um papel com um texto manuscrito e pediu-lhe que o mandasse imprimir e o enviasse aos bispos de todo o mundo.
Qual era o conteúdo desse papel? Uma oração ao Arcanjo São Miguel, composta pelo próprio Papa. Uma oração que os sacerdotes recitariam depois de cada missa rezada, ao pé do altar, após a Salve-Rainha já prescrita por Pio IX:

Oração:
São Miguel Arcanjo,
defendei-nos no combate,
sede o nosso amparo
contra a maldade
e as ciladas do demónio.
Instante e humildemente vos pedimos
que Deus impere sobre ele.
E vós, Príncipe da milícia celeste,
com esse poder divino,
precipitai no inferno Satanás
e os outros espíritos malignos
que vagueiam pelo mundo
para perdição das almas.

Tilma_2Leão XIII confidenciou mais tarde a um de seus secretários, Mons. Rinaldo Angeli, que durante a missa tinha visto uma nuvem de demónios que se lançavam contra a Cidade Eterna para ataca-la. Daí a sua decisão de mobilizar São Miguel Arcanjo e as milícias celestes para que defendessem a Igreja contra Satanás e os seus exércitos, e, de modo particular, para que se resolvesse o que então se chamava “a questão romana”.( chamou-se a” questão romana” ao problema criado por ocasião da unificação italiana, que suprimiu os antigos Estados Pontifícios).
A oração a São Miguel foi suprimida na última reforma litúrgica. Há quem pense que, sendo tão apropriada para conservar entre os fiéis e os sacerdotes a fé na presença activa dos anjos bons e dos anjos maus, essa oração mereceria ser reintroduzida, ou na liturgia das horas ou na oração dos fiéis na Santa Missa. Como afirmava João Paulo II em 24 de maio de 1987, no santuário de São Miguel Arcanjo no monte Gargano, “o demónio continua vivo e activo no mundo”. As hostilidades não cessaram, os exércitos de Satanás não se desmobilizaram.
Portanto, a oração continua a ser necessária.
Em 20 de Abril de 1884, pouco tempo antes dessa visão do mundo diabólico, Leão XIII tinha publicado uma Encíclica sobre a franco-maçonaria que se iniciava com considerações de envergadura cósmica: “Desde que, pela inveja do demónio, o género humano se separou miseravelmente de Deus, a quem devia a sua chamada à existência e os dons sobrenaturais, os homens dividiram-se em dois campos opostos que não cessam de combater: um pela verdade e pela virtude, o outro por aquilo que é contrário à virtude e à verdade”.

Quando se medita nestas considerações de Leão XIII, compreende-se melhor o lema dado por Paulo VI a que já nos referimos, como também se compreende que João Paulo II se tenha feito eco dele, indo até mais longe do que o seu predecessor. Ao passo que este não dedicou senão uma catequese das quartas-feiras ao problema do demónio, João Paulo II tratou do tema ao longo de seis audiências gerais sucessivas. E é preciso acrescentar a essas a locuções no monte Gargano, a 24 de Maio de 1987, e um discurso sobre o demónio pronunciado em 4 de Setembro de 1988, por ocasião de uma viagem a Turim.

A catequese de João Paulo II permite-nos compreender melhor algumas advertências dos Apóstolos à comunidades da Igreja primitiva. São Paulo escreve aos fiéis da cidade de Éfeso, depois de ter exortado os pais e os filhos, os senhores e os escravos a levarem uma vida cristã mais coerente, acrescenta uma consideração ao mesmo tempo surpreendente e iluminadora: Não tendes de lutar somente contra os homens, mas também contra as potências do inferno (cfr. Ef. 6, 12). Isto significa que, para um bom cristão, não é suficiente lutar contra as suas más tendências e contra a influência perniciosa do ambiente, mas deve combater também contra esses inimigos invisíveis que são os demónios.

É significativo que o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen gentium (nº 35), recorde essa exortação do Apóstolo à Igreja de Éfeso. É como se os Padres conciliares dissessem aos católicos de hoje: “Caríssimos irmãos e irmãs, atenção! Estai sempre em guarda! Ao lado dos vossos inimigos visíveis, estão, invisíveis, esses inimigos poderosos que são os demónios, sempre à espreita de uma presa! Vigiai para não cair nas suas redes!”
Sim. Essa chamada de atenção, válida para os cristãos do primeiro século, também o é para os cristãos de hoje, como o será para os de amanhã. Porque nada mudou nem nada mudará na debilidade congénita dos homens e no ódio feroz de Satanás por eles. A persistência do perigo requer a continuidade da vigilância.

Uma passagem bem conhecida da primeira carta “encíclica” de São Pedro soa de modo parecido à  advertência de São Paulo. São Pedro é até muito mais explícito, exprimindo-se numa linguagem facilmente compreensível para o comum dos fiéis:”Sede sóbrios e vigiai! O vosso adversário, o demónio, anda como leão que ruge, buscando a quem devorar. Resistir-lhe firmes na fé (1 Pe. 5, 8).
É significativo que São Pedro, a fim de sublinhar melhor a gravidade do perigo, chegue a comparar o demónio ao leão, o animal que é considerado o mais feroz de todos. Ora, a chamada de atenção do Apostolo não se dirigia somente a uma minoria de cristãos fervorosos, mas à comunidade dos fiéis. Referia-se a nós.

Compreende-se, portanto, a insistência de São Pedro sobre a necessidade de vigiar e resistir. A vida cristã e o destino eterno de cada homem depende desta vigilância e desta resistência. Sublinhemos também que São Pedro convida os fiéis a irem buscar as suas armas no arsenal da fé sobrenatural: Resisti-lhe firmes na fé.

JP2-Scan-1Maria combate por nós

O Concílio Vaticano II recorda estas verdades profundas da Revelação cristã. “Através de toda a história dos homens, tem lugar um duro combate contra as potências das trevas. Começa no início, durará até o último dia, como disse o Senhor (cfr. Mt. 24, 13; 13, 24-30 e 36, 43). Ocupado nesta batalha, o homem deve combater sem pausas para alcançar o bem. E somente por meio de grandes esforços, com a graça de Deus, consegue alcançar a sua unidade interior pela união com Deus”.

“Os demónios, nossos inimigos, são fortes e terríveis, possuem um ardor invencível e estão animados de um ódio furioso e inimaginável contra nós – diz o velho Catecismo Romano – De igual modo, guerreiam-nos sem descanso, sem paz e sem trégua possível. A sua audácia é inacreditável….”

Maria, Mãe da Igreja, desempenha um papel decisivo neste “duro combate” contra os anjos das trevas. Assim o revela João Paulo II na sua Encíclica sobre a Bem-aventurada Virgem Maria na Igreja em marcha, que se inspira no Gênesis e no Apocalipse. “Mercê do vínculo especial que une a Mãe de Cristo à Igreja –  escreve o Papa –  “esclarece-se melhor o mistério daquela “mulher” que, desde os primeiros capítulo do Livro do Gênesis até o Apocalipse, acompanha a revelação do desígnio salvífico de Deus a respeito da humanidade. Com efeito, Maria, que está presente na Igreja como Mãe do Redentor, participa maternalmente do “duro combate contra as potências das trevas” (cfr. Gaudium et spes, 37) que se trava ao longo de toda a história humana”.

Nossa Senhora é segundo uma antiga interpretação de diversos Padres da Igreja, a Mulher de que falam o Gênesis e o Apocalipse. Lemos no Apocalipse: ” Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol, a lua debaixo dos seus pés e, sobre a sua cabeça, uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz (Apoc. 12, 5).
“Ninguém ignora – diz o Papa São Pio X – que essa Mulher representa a Virgem Maria, que deu à luz – sem perda da sua integridade – a nossa Cabeça(…).

Numa linguagem de fogo, São Luís Maria Grignion de Montfort descreve o poder extraordinário de Maria sobre os demónios:
“Maria é o inimigo terrível que Deus fez contra o demónio (…) Desde o Paraíso terrestre, embora então só estivesse na sua mente, Ele incutiu na nossa Mãe tanto ódio  contra esse maldito inimigo de Deus, tanta habilidade para descobrir a malícia dessa antiga serpente, tanta força para vencer, derrubar e destruir esse orgulho ímpio, que o demónio a teme não só mais do que teme todos os anjos e homens juntos, mas, em certo sentido, mais do que teme o próprio Deus.

“E isto não porque(…) o poder de Deus não seja infinitamente maior que da Santíssima Virgem – Já que as per feições de Maria são limitadas – mas, primeiro, porque, como Satanás é orgulhoso, sofre infinitamente mais sendo vencido e castigado por uma pequena e humilde serva de Deus: a sua humildade humilha-o mais do que o poder divino; segundo, porque Deus deu a Maria um poder tão grande contra os diabos que estes temem mais (…) um dos seus suspiros por uma alma do que as orações de todos os santos, e uma das suas ameaças do que todos os demais tormentos.”

Santo Afonso Maria de Ligório recolhe no seu livro “As glórias de Maria” (cap. V) o episódio de um homem devotíssimo de Nossa Senhora que, assaltado por tentações impuras, ouviu interiormente na oração uma voz que lhe dizia: “Abandona essa tua devoção a Maria, e eu cessarei de tentar-te”. Todas as práticas de devoção à Virgem Maria – o Rosário, a oração “Lembrai-vos”, etc. -, quando praticadas com confiança filial e vontade eficaz de refugiar-se sob o amparo daquela que é Mãe de Deus e Mãe nossa, trazem consigo a sua protecção maternal contra as ciladas do Maligno.

Mas há uma pratica muito arraigada e que goza de inúmeras bênçãos dos Pontífices (cfr. Josemaria Escrivá, Caminho, 9a. ed. Quadrante, São Paulo, 1999, nº. 500): o uso do escapulário de Nossa Senhora do Carmo. Há mil provas de que essa prática ajuda a vencer as dificuldades e tentações do demónio. “Eu devo muito – dizia o Papa João Paulo II – nos anos da minha juventude, ao escapulário carmelitano”, que é espiritualmente como uma roupa com que toda a mãe cuida vestir os seus filhos pequenos. “Nossa Senhora do Carmo – continuava o Papa -, Mãe do santo escaulário, fala-nos desse cuidado maternal, dessa sua preocupação por vestir-nos (…), por vestir-nos com a graça de Deus e por ajudar-nos a conservar essa roupa sempre limpa” ( Aloucução, 15-1-1989).

Para os que nEla confiam, Maria esmagará a cabeça da serpente sempre que se vejam tentados .

Diz o Padre Gabriele Amorth, ( famoso exorcista e especialista em mariologia), no seu livro “Mais forte que o mal”- sobre o o Santo Padre Pio – “Encontrei-me com o santo Padre Pio pela primeira vez em 1942 e fui visitá-lo ininterruptamente até 1968. Quando dizia o Terço eu ficava parado a contempla-lo. Chamava-o a sua arma e ao seu director espiritual escreveu que recitava pelo menos cinco Rosários por dia. Pela forma como rezava, isso representava cinco horas dedicadas ao Rosário. E quanto mais avançava na idade, mais sentia a necessidade de dedicar tempo à oração. Assim, tendia sempre a reduzir o tempo de atendimento para as confissões. Um confrade seu um dia fez-lhe notar que faria bem em dedicar-se mais às confissões, porque havia muitas pessoas vinda de todo o mundo que tinham de esperar até alguns dias. Ele respondeu: “Pensas que as pessoas vêm até aqui por causa do Padre Pio? As pessoas vêm aqui para ouvirem uma palavra do Senhor. Ora, se eu não rezo, o que é que dou a este povo?”.

Padre Amorth, diz ainda no seu livro – A jesus importa muito a nossa fé, “O justo viverá pela fé, sublinha Abacuc. E São Paulo, na Carta aos Gálatas, reafirma: “O justo viverá em virtude da fé”. (…) De um lado, a escolha do mal, e, do outro, contra-posição aberta, a escolha do bem, na aparições marianas e da divulgação dos milagres eucarísticos de  ao Senhor importar muito a nossa fé. Deseja que o homem O considere com confiança porque este é o único modo que existe para salvar a própria alma. E o Senhor sabe esperar… De resto, considerando como vão as coisas da vida, as propostas que chegam insistentes de certos ambientes, parece que existe maior interesse em estar com o diabo do que com Jesus.
Estamos desorientados e não sabemos qual é o nosso verdadeiro bem. Daqui emerge a necessidade de pedir. Por isso,Jesus ensinou-nos o Pai Nosso: para confiarmos e pedirmos.
O Pai Nosso é o Evangelho completo. E quando Jesus nos diz para pedir ao Pai para nos livrar do maligno é porque somente recebendo ajuda de Deus nós temos a força de vencer esta batalha.
O Padre Amorth dá-nos uma defesa cristã: “Podemos dizer: tudo o que nos defende do pecado, também nos defende do inimigo invisível. A graça é a defesa decisiva. A inocência assume um aspecto de fortaleza. E depois cada um lembra como a pedagogia apostólica simbolizou  na armadura de um soldado as virtudes que podem tornar invulnerável o cristão (cfr. Rm. 13,12; Ef. 6,11. 14-17; I Ts. 5,8). O cristão deve ser militante, deve ser vigilante e forte ( I Pd. 5,8); e deve por vezes recorrer a algum exercício ascético especial para afastar certas incursões diabólicas; Jesus ensina indicando o remédio “na oração e no Jejum” (Mc. 9,29). E o Apóstolo sugere a linha mestra que se deve ter: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem”. (Rm. 12,21; Mt. 13,29).
Com a certeza por isso das presentes adversidades em que hoje as almas, a Igreja e o mundo se encontram, nós procuraremos dar sentido e eficácia à inovação usual da nossa oração principal: “Pai Nosso (…) livrai-nos do mal!” A isso vos ajude também a nossa Bênção Apostólica.
Os anjos de luz vencem sempre o mal:
Como acertam os mestres espirituais quando dizem que o diabo atenta de preferência os amigos de Deus que são mais piedosos e os homens e as mulheres destinados a uma missão especial na Igreja!
Certamente  São Bento, Santa Teresa do Menino Jesus e São João Bosco precisaram de graças especiais para repelir a mão de Satanás durante as tentações. Ora, Deus concede essas graças ordinariamente por meio do ministério dos Anjos da Guarda. Para que a luta entre o homem e Satanás não fique desequilibrada – observa São Tomás de Aquino – Deus assegura-nos a ajuda da graça e a protecção dos anjos.

Assim se compaginam dois textos densos da Sagrada Escritura que abrem perspectivas infinitas ao nosso espírito.
Por um lado, a advertência de São Pedro: Sede sóbrios e vigiai! O vosso adversário, o demónio, ronda como um leão que ruge buscando a quem devorar: resisti-lhe firmes na fé. Por outro lado, a confiante afirmação do salmista: “Não chegará perto de ti a calamidade nem a praga se aproximará da tua tenda. Pois Ele te confiará aos teus anjos para que te guardem em todos os teus caminhos, e eles te levantarão nas suas palmas para que teus pés não tropecem nas pedras; pisarás sobre áspides e víboras e afastarás o leão e o dragão (Sl. 91, 10-13).

As  ciladas preparadas pelos anjos das trevas são numerosas, mas a ajuda que os anjos da luz nos oferecem é poderosa: mais poderosa.
O rei Aram da Síria estava em guerra com Israel. O profeta Eliseu, que ele queria capturar, encontrava-se em Dota. Aram enviou para lá cavalos, carros e uma tropa nutrida, que chegou pela calada da noite e sitiou a cidade.
No dia seguinte, o servo do homem de Deus levantou-se muito cedo e saiu da tenda: viu que um bom número de soldados rodeavam a cidade com cavalos e carros e disse a Eliseu: ” Ah, meu senhor! Que vamos fazer? ” Eliseu respondeu-lhe: ” Não temas! Os que estão connosco são mais numerosos que os que estão com eles”. E Eliseu rezou assim pelo seu servo: “Senhor, abre-lhe os olhos para que veja!” O Senhor abriu os olhos do servo, e este viu que a montanha estava cheia de cavalos e carros de fogo que rodeava Eliseu (cfr. 2 Re. 6, 12-17).

 

Oração para dissipar o nosso medo

Senhor Jesus,  Vós que vencestes Satanás pela vossa Paixão e Ressurreição, dignai-vos dissipar o nosso medo pelo Malvado e pelas suas legiões, fazendo-nos compreender que os que estão connosco são mais numerosos que os que estão com eles.
Senhor, dignai-vos conceder-nos que vejamos com os olhos da fé o que não podemos ver com os olhos da carne: os cavalos e carros de fogo, imagem do invisível exército de anjos de luz que nos rodeia e nos guarda. Amem!

 

Na conferência Episcopal da Toscânia, em 23 de Fevereiro de 1997, sobre magia e demónios,-( …) disse Joseph Ratzinger: ” A cultura ateia do Ocidente moderno vive ainda graças à libertação do medo e dos demónios trazida pelo Cristianismo. Porém, se a dita luz redentora de Jesus Cristo chegar a extinguir-se, pese embora toda a sua sabedoria e tecnologia, o mundo mergulhará no terror e no desespero. Já existem sinais que indicam o retorno de forças obscuras, enquanto no mundo secularizado os cultos satânicos estão a aumentar”(Diálogos sobre a fé, 1985).

conclusão da conferência:
A urgência de uma nova evangelização
Magia e nova evangelização
A problemática tratada neste documento relaciona-se, em última análise, com a exigência desta “nova evangelização” da qual o Santo Padre, nestes últimos anos, tem sido o testemunho e a voz infatigável. A busca do “mágico”, sob as suas diferentes formas, surge de uma necessidade de sentido e de respostas que hoje a sociedade não é capaz de dar, especialmente no aspecto de uma necessidade, em situações de insegurança e de fragilidade crescentes. Recorrer à magia e às práticas de adivinhação é uma compensação do vazio existencial que caracteriza a precariedade da nossa época. É nesse vazio – que inclusivamente diz respeito aos cristãos que não cresceram numa fé adulta – que se apresenta a urgência de um anúncio cristão e entusiasta do Evangelho e da graça de Cristo. Só uma redescoberta capilar ampla do verdadeiro sentido da religião e da fé em Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, permite responder de maneira adequada à expansão da magia, sob as suas formas antigas ou recentes, e que se faça luz sobre temas referentes ao discernimento da acção de Satanás no mundo. Há que proclamar novamente, com um vigor renovado, como nos alvores da Igreja, que só Jesus, o Ressuscitado que vive eternamente, é o Salvador. “E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar” (At. 4,12).

Os “autores de actos de ocultismo” só encontram terreno fértil onde existe ausência, vazio, de evangelização. Devemos recordar-lhes, do mesmo modo que às suas vítimas, como o afirmamos reiteradas vezes nesta Nota, que as suas acções estão desviadas e em contradição absoluta com a verdade e a consistência da fé. Propondo a plenitude da existência cristã, a nova evangelização não deve deixar de fazer um exame de consciência crítico e denunciar essas formas de magia que –  a diversos títulos, quer se trate de magia branca quer magia negra – se opõem ao conteúdo da fé e a um enfoque da vida que corresponde à revelação de Deus confiada à Igreja. Neste campo é necessária uma grande atenção pastoral e uma clareza absoluta dos  princípios. De maneira positiva, há que voltar a dar o lugar que lhe corresponde a escutar a Palavra de Deus, à celebração dos sacramento a como actos de Cristo e da Igreja, e símbolos eficazes da graça pascal, sobretudo a Eucaristia, fonte e cume de toda a vida dos cristãos. “Na Santíssima Eucaristia, está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo; assim são eles convidados e levados a oferecer, juntamente com Ele, a si mesmos, os seus trabalhos e todas as coisas criadas”(Presvyterorum ordinis, 5).

O absoluto e insubstituível senhorio de Jesus Cristo
Ao terminar esta Nota, queremos reafirmar o absoluto e insubstituível senhorio de Cristo não só na vida da Igreja, mas também na própria história do Cosmos e da Humanidade: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criação, porque nele foram criadas todas as coisas, nos Céus e na Terra, as visíveis e as invisíveis,…. tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele existe antes de todas as coisas e todas as coisas têm nele a sua subsistência” (Cl 1, 15-17). Só o Senhor Jesus Cristo é o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim (cfr. Ap. 1,8). Ele, e só Ele, tem o poder e a glória pelos séculos dos séculos(cfr. Ap. 11,15-18), derrubou o acusador dos homens e levou a vitória a seus irmãos (cfr. Ap. 12, 10-12). Ele, e só Ele, proclamou o dom gratuito da água da vida e todos aqueles que obtêm a vitória sobre o mal e sobre toda a forma de “feitiçaria” (cfr. Ap. 21, 6-8). Aquele que encontrou Jesus Cristo não necessita de procurar a salvação noutro lugar. Ele é o único e autêntico Redentor do homem e do mundo. Desta certeza surge a alegria da nossa fé. Como João, ao longo do caminho da vida, podemos proclamar a doxologia do povo dos redimidos, na esperança de entrar definitivamente na pátria gloriosa: “Àquele que nos ama e que com o seu sangue nos lavou dos nossos pecados ´, e nos fez reis e sacerdotes para Deus, seu Pai, glória e poder para todo o sempre. Amem! (Ap. 1, 5-6). 23 de Fevereiro de 1997, Conferência Episcopal da Toscana.

Jesus diz a Santa Faustina no nº 1728: – “Escreve: Sou três vezes Santo e abomino a menor falta. Não posso amar uma alma manchada pelo pecado, mas, quando se arrependa, não há limites para Minha generosidade com ela. A minha Misericórdia a envolve e justifica. Com a Minha Misericórdia persigo os pecadores em todos os seus caminhos, e alegra-se o Meu Coração, quando eles retornam a Mim. Esqueço as amarguras com que alimentaram o Meu Coração e rejubilo com o regresso deles.
Diz aos pecadores que ninguém há-de escapar ao Meu braço: se fogem do Meu misericordioso Coração, hão de cair nas mãos  da Minha Justiça. Diz aos pecadores que Me mantenho sempre à espera deles; sondo com atenção o pulsar dos seus corações, para ver quando batem por Mim. Escreve que lhes falo por meio dos remorsos da consciência, pelas frustrações e sofrimentos, pelas tempestades e raios. Interpelo-os pela voz da Igreja e, se menosprezarem todas as Minhas graças, hei-de começar a irar-Me com eles, abandonando-os a si próprios, dando-lhes o que desejam”.

 

 

João Paulo II, respondeu a algumas perguntas que muitos não cristãos ou cristão não praticante, se pergunta, (cap. 7, no livro Atravessar o Limiar da Esperança).
Pergunta: – Porque Jesus não seria apenas um sábio, como Sócrates? Ou um profeta, como Maomé ? Ou um iluminado, como Buda? Como defender a certeza inaudito de que este hebreu condenado à morte numa obscura província é o Filho de Deus, da mesma natureza do Pai? Esta pretensão cristã não tem paralelo, pela sua radicalidade, em nenhuma outra crença religiosa. O próprio São Paulo define-a como “um escândalo e uma loucura”.

Resposta do Santo Padre: – São Paulo está profundamente consciente de que Cristo é absolutamente original, de que é único e irrepetível. Se fosse apenas um “sábio” como Sócrates, se fosse um “profeta” como Maomé, se fosse um “iluminado” como Buda, sem dúvida não seria aquilo que é. E é o único Mediador entre Deus e os homens.
É Mediador pelo facto de ser Deus-homem. Ele detém em Si todo o mundo íntimo da divindade, todo o Mistério trinitário e também o mistério da vida no tempo e na imortalidade. É verdadeiramente homem. N’Ele, o divino não se confunde com o humano. Permanece algo de essencialmente divino.
Mas Cristo, ao mesmo tempo, é tão humano! Graças a isso todo o mundo dos homens, toda a história da humanidade encontra n’Ele a sua expressão diante de Deus. E não diante de um Deus longínquo, inacessível, mas diante de um Deus que está n’Ele: mais ainda, que é Ele próprio. Isto não existe em nenhuma outra religião nem, ainda menos, em qualquer filosofia.

Cristo é irrepetível!
Não fala apenas, como Maomé, promulgando princípios de disciplina religiosa, a que devem a ter-se todos os adoradores  de Deus. Cristo também não é apenas um sábio no sentido em que o foi Sócrates, cuja livre aceitação da morte em nome da verdade tem, todavia, traços de semelhança com o sacrifício da cruz.
Menos ainda é semelhante a Buda, com a sua negação de tudo o criado. Buda tem razão quando não vê possibilidade de salvação do homem na criação, mas engana-se quando, por tal motivo, nega qualquer valor para o homem a toda a criatura. Cristo não faz isto e não pode fazê-lo, porque é testemunha eterna do Pai e desse amor que o Pai tem pela Sua criatura desde o princípio. O Criador, desde o princípio, vê um bem multiplicado na criação, vê-o especialmente no homem formado à Sua imagem e semelhança: vê tal bem, num certo sentido, através do Filho incarnado. Vê-o como uma tarefa para Seu Filho e para todas as criaturas racionais. Sondando o limite da visão divina, poderemos dizer que Deus vê este bem, de modo especial, através da Paixão e Morte do Filho.
Este bem virá a ser confirmado pela Ressurreição que, de facto, é o princípio de uma nova criação, do reencontro em Deus de toda a criação, do destino definitivo de todas as criaturas. E tal destino exprime-se no facto de que Deus será “tudo em todos” (1Cor. 15,28).

 

LE dIABLE AUJOURD’HUI ,Copyright ,1999 Georges Huber e Ediciones Palavra.
IL DEMONIO – riconoscerlo – vincerlo -evitarlo – Edizioni Sn Paolo, 2010 Cpadre Amorth.
A proposito di Magia e Demonologia – Nota Pastorale della Conferenza Episcopale Toscana de 15. 4 . 1994.
Vacare la soglia della speranza – Arnoldo Mondadori –  Editore S. p. A. – Milão.

 

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