O Nascimento De Jesus Em Belém

IMG_20160118_0007Segundo as visões dadas à religiosa agostinha Caterina Hemmerich

Palavras do Evangelho:

«Maria deu à luz o seu filho primogénito e o envolveu em paninhos e o reclinou em uma manjedoura, por não haver lugar na estalagem»

– Ao fim de alguns meses, subiu José à cidade de Jerusalém, levando algumas cabeças do rebanho para os sacrifícios do Templo. Por esta ocasião, diz Caterina Emmerich, vi a S.Smª Virgem com outras mulheres, ocupadas na confecção de faixas, panos e agasalhos para o menino que havia de nascer. Santa Ana, na persuasão de que a Virgem escolheria a sua casa para o nascimento do filho da Promessa, dispunha tudo para a receber, a ela e aos parentes, que a viessem visitar.

S. José, encontrando-se em Jerusalém, aproveitou a ocasião para ir a Belém e lá colher informações sobre uma lei de arrolamento e de novos impostos. No regresso, a seis léguas de Nazaré, apareceu-lhe um anjo, dizendo que devia seguir com Maria para Belém, onde ela devia de dar à luz um menino.

Como Santa Ana e sua filha se encontrassem em Nazaré, o esposo de Maria comunicou-lhes ao chegar, a ordem recebida do anjo. A S.Smª Virgem sabia já, pelos livros do Templo, qual era a cidade onde o Salvador havia de nascer pois, quando vivia em Jerusalém, todas, mestras e educandas, suplicavam já a Deus que abreviasse a hora da Salvação de Israel, pedindo ela, no seu fervor e humildade, que lhe fosse concedido o último lugar no cumprimento das promessas do Altíssimo. Santa Ana, essa é que ficou com a alma enevoada de tristeza ao saber que a sua filha tinha de partir naquele estado para longes terras.

Na tarde desse dia (13 de Novembro), diz Catarina, vi José e Maria saírem da casa do vale de Zabulon, acompanhados de Santa Ana, Maria Cleofas e alguns servos. A S.Smª Virgem ia assentada numa jumenta que levava também alguns utensílios para a viagem. Uma segunda alimária era destinada à mãe de Maria, que, juntamente com outras pessoas de família, a iam acompanhar numa parte do caminho. E assim, percorrendo juntas as primeiras seis léguas a partir de Nazaré, é que chegaram onde na ante véspera, um anjo apareceu a São José. Nela possuía Santa Ana terras de pastoreação e alguns rebanhos.

Ali chegados, os dois esposos, separando-se das pessoas que os acompanhavam, tomaram o caminho, que vai pelas montanhas de Gelboe. Obedecendo às ordens do anjo, S. José levava com ele somente os artigos indispensáveis; a jumenta era acompanhada de uma jumentinha, que durante a viajem ia saltitando, ora à frente, ora ao lado dos dois viajantes.

Vi que São José no caminho para Belém, se desviava das cidades, e que era guiado, segundo instruções do anjo, pelos passos da jumentinha. Assim é que chegaram a uma propriedade, que Lázaro possuía não longe da cidade de Ghinim, já em terreno da Samaria. O chefe dos pastores recebeu-os carinhosamente. As relações entre a família de Lázaro e Santa Ana era já antigas. Jesus Cristo por ali passou mais tarde com os discípulos e ensinou nas vizinhanças. O lugar é alto e cultivado de pomares, vendo-se ao largo um extenso horizonte. Tanto o feitor de Lázaro, como sua mulher, mostraram-se admirados por verem Maria empreender naquele estado tão grande viagem e, entre si diziam que melhor teria feito deixando-se ficar em casa.

São José e a Virgem retomaram o caminho de Belém e como Catarina misticamente fizesse companhia aos dois peregrinos durante toda a sua viagem, contou o seguinte: – Vi a santa Família (noite de 15 para 16 de Novembro) a algumas léguas do lugar, onde haviam pernoitado, seguindo por um vale entre montanhas, onde parecia haver neve. Foi nessa altura que a Virgem dirigindo-se a José lhe falou assim: – «O frio é muito e temos que fazer alto. Eu já não posso ir mais longe.» Acabava Maria de dizer estas palavras, quando a jumentinha parou ao lado de um terebinto muito velho, que ali estendia para o alto os braços acolhedores.

São José ajudou a Virgem a descer da montada e, aproveitando a disposição do tronco da árvore, preparou um assento, onde a mãe de Jesus se acomodou o melhor que pôde, enquanto ele pendurava o lampião num dos ramos do terebinto. Era costume os viajantes que de noite andavam pelas terras de Palestina trazerem uma lanterna que penduravam nas árvores, sempre que faziam alto. E acrescenta a piedosa vidente que a S.Smª Virgem invocou o Senhor e lhe pediu que o frio não lhe fizesse mal. Como a súplica fosse atendida, e sentindo que o tempo se lhe mudou em calor, estendeu as mãos para São José a fim de que viesse aquecer nas mãos dele.

Como são José tirasse das provisões da viagem , pão e frutas, ali tomaram algum alimento, e beberam de uma fonte que ao lado nascia, vendo eu que na água deitaram algumas gotas de bálsamo aromático. São José animou a S.Smª Virgem e falou-lhe do agasalho, que esperava arranjar-lhe em Belém.

«Ele era tão bondoso! E como sabia suportar sem parecer que sofria!» Até esta altura da viagem tinham atravessado duas correntes de água, mas só uma delas é que tinha ponte. A árvore em cujos ramos se abrigavam era um terebinto sagrado e muitíssimo velho, que fazia parte do bosque de Moreb e pertencia à cidade de Siquem. Abraão quando veio à Terra da Promissão, recebeu junto dele a visita do Senhor, que lhe prometeu a posse de toda aquela terra. Foi ainda à sombra dele que levantou um altar e que Jacob, antes de oferecer um sacrifício em Betel, enterrou os ídolos de Labão. Foi, também, ao abrigo desta árvore que Josué colocou a arca da Aliança, obrigando o povo de Israel, agrupado à sua volta dela, a renunciar ao culto da idolatria. Foi igualmente neste lugar sagrado que os siquimitas proclamaram para seu rei Abimelech, filho de Gedião.

Caterina Hemmerich, a seguir à enumeração dos acontecimentos do Antigo Testamento, que o anjo lhe apresentou diante dos olhos, enquanto a Virgem descansava, continuou a narrativa da Viagem dizendo: – Vi hoje (sexta feira, 16 de Novembro) a santa Família chegar a umas terras de granjeio e como a dona da casa estivesse fora, o marido respondeu-lhes secamente, dizendo que fossem bater a outra porta e recusou-lhes hospedagem. Partindo dali, viram a jumentinha parar ao lado de uma cabana de pastores, para onde foram convidados a entrar. Os donos ofereceram tudo o que era preciso para os dois viajantes se aquecerem e, depois que José e Maria partiram, como encontrassem a dona da casa anterior, falaram-lhe a respeito das boas qualidades de São José e de quanto a Virgem era formosa e como tinha ares de santa. Comovida a mulher censurou o marido pelo que fizera e, partindo ambos foram sem perda de tempo no encalço dos peregrios, e como os encontrassem, pediram perdão a São José e ofereceram-lhes géneros de alimentação para a viagem.

Agora os caminhos por onde estavam seguindo ficavam no declive norte de uma montanha, situada entre Samaria e Thebez. Como se aproximasse o dia de sábado, indicaram-lhe uma casa de hospedagem, mais ao alto da montanha, para onde dirigiram os passos. Ali chegados foi-lhes respondido pelo dono que não podia recebê-los, por a hospedaria estar cheia. Aparecendo porem a dona da casa, dirigiu-se-lhe a Virgem com tanta humildade, que a mulher comovida, bem como o marido, tratou de lhes procurar uma cabana na vizinhança, onde ficaram. A jumenta foi guardada numa corte, enquanto a jumentinha corria à vontade nas proximidades, aparecendo somente quando era preciso seguir na dianteira, pelos caminhos que levavam a Belém.

São José entretanto, dispôs a alâmpada e à luz dela orou juntamente com a S.Smª Virgem, dando assim princípio à solenidade de sábado, para, terminada ela e finda a refeição da noite, descansaram das fadigas da viagem, dormindo sobre esteiras estendidas no chão.

E, Caterina Hemmerich acrescentou: – «Vo que a Sana Família passou o dia de sábado (17 de Novembro) na mesma cabana, rezando juntos os salmos da Lei. A dona da hospedaria veio com 3 filhos fazer-lhes uma visita, compadecendo também aquela mulher, cujo marido lhes recusara hospedagem. As duas assentaram-se familiarmente ao lado de Maria, sentindo-se atraídas pela simplicidade e sabedoria com que lhes falou do que podia interessa-las. As crianças, ouvindo-a explicar as palavras duns rolos da Escritura, ficaram como que enlevadas a olhar para o rosto de Maria, durante todo o tempo que lhes contou as coisas do Senhor. São José, findo o dia de sábado, percorreu com o dono da hospedaria os arredores e plantações, que a este pertenciam, falando também das coisas de Deus. É assim que eu vejo, diz Caterina, as conversas das pessoas piedosas, em dia de sábado.»

-(Domingo, 18 de Novembro) – Os donos da hospedaria presos de afeição para com a S.Smª Virgem, insistiram que ali aguardassem a hora de Maria da à luz, declarando que do coração lhe prestariam todos os serviços. Os dois esposos, porém, retomaram, do dia imediato, a sua viagem, descendo pelo declive sudoeste da montanha, a caminho do vale. Na descida podiam ver o monte Garizim, com o templo no alto, coroado de figuras de leões e outros animais, que brilhavam com os reflexos do sol nascente.

Percorridas umas seis léguas, chegaram pela tarde a um casa na planície a sudoeste de Siquem, onde foram muito bem recebidos pelos pastores que o habitavam. Nesta região os campos são mais férteis do que as terras até ali percorridas, devido à boa exposição, quase toda voltada para o sol. Este facto influi notavelmente nas culturas nesta quadra do ano. Daqui até Belém encontraram-se muitos casais como este, espalhados pelos vales e encostas das montanhas.

Foi com filhas de pastores desta região, que tempos depois, vieram a casar alguns dos servos dos três Reis Magos, que se fixaram na Palestina. Duma dessas uniões, proveio um mancebo que o Senhor, a pedido da Virgem, curou na mesma casa, que então lhe dera agasalho. Deu-se aquele facto a 31 de Junho do 2º ano da Sua pregação, a seguir ao coloquio com a Samaritana. Eram também destes sítios, os três mancebos que o acompanharam à Arábia, a seguir à morte de Lázaro. Um deles foi o mesmo que o Senhor tinha curado e veio a pertencer ao número de discípulos.

(Segunda feira, 19 de Setembro) – Os dois viajantes seguiram hoje por caminhos mais regulares e vi que, de vez em quando, colhiam bagas e frutos silvestres, que pendiam tanto à direita como à esquerda e vi que os pés se apoiavam nuns estribos de madeira, e não iam pendentes como é costume com a gente do povo. Vi, também, que por vezes se apeava e seguia a pé durante um tempo.

Já anoitecia quando chegaram junto duma casa, onde pediram hospedagem, respondendo-lhes o dono desabridamente, sem mesmo lhes abrir a porta. Continuando dali, encontraram a jumentinha ao lado de um alpendre, onde passaram aquela noite. Da última hospedaria a distância seriam dumas 6 léguas, e 26 desde Nazaré, restando 10 para chegarem a Jerusalém. Nos caminhos seguidos até aqui, afastaram-se da grande estrada percorrida pelos que subiam à cidade santa, tendo, por isso, que atravessar muitos caminhos que do Jordão iam ter à Samaria, e ligavam com as grandes vias da Síria e do Egipto. Muitas vezes encontravam atalhos estreitíssimos por onde só à pé e com cuidado é que podiam ir caminhando, para evitar que a montada tropeçasse ou a Virgem sofresse perigo nas pedras do caminho. O trilho, porém, que agora estavam seguindo, era já terreno mais uniforme e plano.

(Terça feira, 20 de Novembro) – Muito de madrugada, José e Maria deixaram o abrigo e, continuando na viagem, enveredaram pela encosta de terreno montanhoso, até chegarem à altura da estrada, que de Gabara liga a Jerusalém. Ficam nesta altura os limites entre a Samaria e a Judeia. Como a Virgem se encontrasse já muito fatigada, tivera, nesta última parte da viagem, que fazer várias paragens. Numa das casas, onde pediram hospedagem, foi-lhes esta proporcionada pela dona da casa, depois do marido ter tratado asperamente a São José, censurando-o, por levar uma donzela naquele estado, obrigando-a a viajar por caminhos tão ásperos.

Mais tarde, a seguir ao baptismo no Jordão, entrou Jesus a 20 de Outubro, numa destas casas, onde lhe mostraram o quarto, onde Maria tinha ficado, mas transformado em oratório, a seguir aos factos que assinalaram o nascimento de Redentor.

Seguindo dali, tomaram pelo caminho que a jumentinha lhes ia mostrando e assim fizeram uma volta de um dia e meio, a nascente de Jerusalém. Como o pai de São José possuíra nessa região uns terrenos de pastagens, conhecia este todos os caminhos, que da casa paterna lá iam ter. Se houvessem tomado pelo deserto de Betânia, podiam chegar a Belém numas 6 horas, mas esses atalhos pedregosos e de montanhas, tornam-se muito incómodos nesta parte do ano. Seguiram, por isso, a jumentinha no caminho dos vales, que vão dar ao Jordão.

(Quinta feira, 21 de Novembro) – Hoje vi os santos viajantes abrigarem-se numa casa de pastores, a 3 léguas do lugar, onde S. João baptizava, e a 7 de Belém.  É a mesma onde Jesus trinta anos depois, pernoitou (11 de Outubro), quando a seguir ao baptismo, passou pela 1ª vez diante de S. João.

A casa era pertença de um homem rico, que recebendo-os amigavelmente, lhes deu quarto próprio. A São José mandou que por um servo fossem lavados os pés, fazendo uma das servas o mesmo à S.Smª Virgem e, enquanto as túnicas de viagem eram escovadas e limpas, vestiam-lhes outras, fornecidas pelo hospedeiro.

«A dona da casa, nova ainda e cheia de vaidade, não quis aparecer aos viajantes, pois tendo observado a Virgem ao aproximar-se da casa, se encheu de inveja ao observar a beleza excelsa da esposa de José e, dispôs tudo para que os dois viajantes se retirassem do dia imediato. Foi esta mulher 30 anos depois, (a 11 de Outubro), Jesus foi encontrar cega e curvada ao meio. A seguir a alguns conselhos sobre os deveres para com os peregrinos e culto da vaidade, restituiu-lhe a saúde, curando-a.»

(Quinta feira, 22 de Novembro) – Pelo meio dia, os dois viajantes deixaram a casa que os recebera e, percorridas duas léguas passaram numa povoação de bom aspecto, com edifícios e jardins. Ali moravam alguns parentes de São José. Continuando, seguiram a estrada de Jerusalém, onde encontraram uma hospedaria, a cuja porta foram bater. No átrio ou entrada dela, via-se um tanque de água, com várias pessoas agrupadas à sua volta, esperando a hora duns funerais.

Ao centro da casa, encontrava-se a lareira com um tudo de descarga para o fumo, mas como tivessem retirado todas as divisões de madeira, ficou a casa transformada em sala única.

Ao fundo e atrás da lareira, viam-se panos caídos do alto das paredes e, em frente, um ataúde coberto de preto. Um grupo de homens, de túnica também preta e manto branco, recitava orações e vi que usavam um manípulo com franjas. Noutra sala, à parte estavam mulheres chorando, assentadas em tamboretes e envolvidas, da cabeça aos pés, em compridos mantos.

Os criados da casa, acompanharam a Santa Família até ao lugar onde deviam ficar, comparecendo mais tarde os donos da casa, que conversaram por muito tempo com os dois viajantes. José  Maria, findo o repasto e a oração da tarde, recolheram-se para dormir e ali ficaram.

(Sexta-feira, 23 de Novembro) – Pelo meio dia, José e Maria tomaram o caminho de Belém, que distava umas três léguas dali. Antes de partirem, a dona do albergue, ao ver o estado de Maria, ofereceu-lhe a casa para nela aguardar a hora do parto, prontificando-se para lhe prestar todos os serviços. São José, porém, conversando com o dono, falou-lhe na confiança em que estava de, em Belém, encontrar casa para quando se aproximasse a hora de Maria. E, acrescenta Caterina Emmerich dizendo que, naquela hora, sentia o coração cheio de tristeza, ao ver como a confiança de São José se ia transformar em amargo desengano. Durante o resto do caminho ainda, o Santo Patriarca falou a Maria no descanso que iam encontrar na terra dos seus pais. E, acrescenta ainda a piedosa agostinha: «Daqui se vê que também os santos se podem enganar algumas vezes».

Deixada a hospedaria, puseram-se de novo a caminho e quando estavam já perto de Belém, tornaram pelo norte, vindo a aproximar-se da cidade do lado poente. Ali, junto duma árvore e fora da estrada, fizeram alto. A Virgem desceu da jumenta e acertou os vestidos, enquanto São José se dirigia a um vasto edifício, rodeado de alpendres e arvoredo, a cuja sombra tinam acampado outras pessoas vindas de fora. Era aquela a antiga casa da família de David. Junto dela, moravam uns parentes de São José e, como este lhes batesse à porta, não somente o não quiseram receber, como o trataram desabridamente como se fora um estranho importuno.

«Era no antigo palácio de David que, agora, se recebiam os impostos e se fazia o arrolamento decretado pelo governo de Roma. São José acompanhado da Virgem, deu entrada nos pátios da guarda, pois, segundo ordens recebidas, ninguém entrava na cidade sem ali receber uma senha de trânsito».

E Catarina Hemmerich continuou a narrar os factos de hoje, dizendo quase textualmente: A jumentinha não estava com eles. Vejo-a a correr à vontade no vale ao meio dia da cidade. São José subia, entretanto, os degraus do palácio, enquanto Maria com a jumenta ficava numa casa de entrada, onde algumas mulheres a trataram bem. Eram elas as que cozinhavam para os soldados romanos. O tempo aqui é mais suave, vendo-se nascer o sol na montanha entre Jerusalém e Betânia.»

Logo que São José deu entrada numa grande sala, perguntaram-lhe pelo ascendentes, cujos nomes foram verificados em rolos de papiro pendentes nas paredes. Examinaram também, a genealogia da Virgem, pois São José parecia desconhecer que era igualmente da descendência de David por São Joaquim. O tributo que os romanos iam aplicar a todos, fora imposto a seguir a uma sublevação dos judeus, havia uns 7 anos. Como porém muitos se esquivassem, o senado tornou-o regular e obrigatório.

Era já ao entardecer, quando São José chegou, mas trataram-no delicadamente. Como lhe perguntassem quais os meios de fortuna, respondeu que de raiz nenhuns possuía, pois vivia do seu trabalho, e do que lhe era dado pela mão de Maria.

Cumpridas as formalidades do recenseamento, São José e a Virgem, antes de entrarem na cidade, passaram por umas ruínas que pareciam de uma antiga porta destruída.

Transposta ela, Maria ficou esperando ao lado da jumenta, enquanto São José batia em vão à porta de todas as casas, pedindo hospedagem. Eram muitos os forasteiros na cidade e como ninguém os quisesse receber, voltou para dizer à S.Smªa Virgem que lhes era preciso ir ao outro quarteirão, porque naquele onde estavam, não havia lugares vazios. E assim, bateram a todas as portas, recebendo São José a mesma resposta: Não. Como fosse caindo a noite, dirigiram os passos para o nascente da cidade, onde José tinha alguns conhecimentos. Todos o reconheceram, mas nenhum se prontificou a dar-lhes agasalho, sendo a negativa mais áspera quando falava no estado de Maria, em vésperas de dar à luz. Restavam-lhes as casas de um arrabalde próximo. Deixada a cidade, para á se encaminharam. Era a última esperança.

Durante algum tempo, Maria esteve de pá, juntamente com a jumenta presa a uma árvore. Algumas pessoas, que iam passando, olhavam para ela, longe de supor que estivessem tão perto do Salvador do mundo.

E diz Caterina: – Como a Virgem se mostrou cheia de paciência, resignada e humilde! Sentindo-se fatigada, fez de alguns embrulhos um assento e neles descansou com a cabeça reclinada e as mão juntas ao peito. Quando São José voltou, adivinhava-se no rosto a tristeza que lhe ia na alma. Os olhos estavam vermelhos de chorar. Muitos nem quiseram escutá-lo e, como a S.Smªa Virgem o procurasse animar, respondeu-lhe que para lá das casas havia um lugar, onde pastores costumavam recolher-se, quando vinham com os rebanho a Belém, acrescentando que ali teriam ao menos um abrigo. «Era uma gruta, onde muitas vezes se refugiou para orar, quando ainda novo, os irmãos o maltratavam».

Seguindo dali, tomaram por um atalho, que torneando à esquera, os levou em poucos minutos ao lugar que procuravam, vendo-se em frente dele algumas árvores de folhagem verde: terebintos, cedros e outras do género da murta.

«Era já noite, quando José e Maria chegaram à porta da gruta. A jumentinha que deles se tinha afastado quando São José entrou na casa dos funcionários de Roma, voltou a aparecer, saltitando de alegria.

«Olhai, – exclamou a Virgem dirigindo-se a São José; – é certamente da vontade do Senhor que fiquemos aqui. Como a abrigar a entrada houvesse uma espécie de telheiro feito de junco, São José prendeu a jumenta ao abrigo dele e, à luz da alâmpada, transpôs o espaço como que um corredor que levava ao interior da gruta, que acabava num hemiciclo. Ali chegado, presa na rocha a alâmpada, arrumou melhor todo o interior.

Neste hemiciclo, lançando a mão de alguns embrulhos e duma cobertura, preparou cuidadosamente um encosto em forma de leito. Foi nele que convidou a Virgem a descansar, ao mesmo tempo que lhe pedia desculpa por não lhe ter conseguido hospedagem melhor. Interiormente porém, a Santa Mãe de Deus sentia-se contente pela tranquilidade do abrigo.

Como principiasse o dia de sábado, São José voltou à cidade para comprar mantimentos. Trazendo brasas e num odre, água da fonte, o seu primeiro cuidado foi acender o lume a um canto da gruta. Terminada a ceia, deram princípio à oração do sábado, recitando à luz da alâmpada os salmos da Lei. No final, recolheu também a jumenta e dispôs tudo para repousar.

(Sábado, 24 de Novembro) – O dia de Sábado passou a S.Smªa Virgem na gruta, em fervorosa oração e meditando. São José saiu porém algumas vezes, certamente para ir à Sinagoga de Belém. Vi-os depois tomarem juntos as refeições do dia, servindo-se dos alimentos cozinhados na véspera. À hora em que os judeus, pela tarde costumam dar um passeio, vi São José a acompanhar a Virgem até à gruta de Marahá onde assentada, Maria descansou por algum tempo, mas sempre recolhida em meditação e orando.

«Marahá, foi a ama que criou Abraão secretamente num ermo, como sendo seu filho, para fugir das predições feitas ao rei. Crescido o menino, e como a estatura apresentasse mais idade, voltou para casa dos pais que o fizeram passar como nascido antes das predições feitas ao rei. Voltando porém a perigar a vida dele, por motivo dos sinais que muito o distinguiam, de novo Marahá o levou para um lugar deserto. Foi mais tarde que Abraão recebeu de Deus ordem para deixar a sua pátria . Partindo de lá com escravos e rebanhos, e sendo a mão já morta, tomou em seu lugar a Marahá que o acompanhou por toda a parte montada num camelo. Vendo Marahá que a sua hora se aproximava pois já passava dos 100 anos, pediu que morrendo a sepultassem numa gruta próximo do sítio onde Abraão levantara as tendas. E assim se fez».

Era aquela acavidade ou caverna muito estreita, em forma de corredor. Por isso Abraão a mandou alargar para melhor nela serem guardados os restos da sua mão adoptiva. E, desde então ficou a catacumba com o nome de “gruta da que amamenta” ou gruta do leite. Tais são as origens da gruta e a razão do nome, porque ficou conhecida. As tradições falam de Marahá, como tendo sido uma das mulheres que cooperaram para a vinda do Messias prometido. No terreno superior à gruta crescera um terebinto, a cuja sombra se abrigavam os pastores. Abraão com Melchisedeque ali se encontraram também e, considerando-a árvore sagrada, vinham das vizinhanças os povos, para igualmente, ao abrigo dela fazer oração.

-Maria e José, estiveram também à sombra do terebinto, donde a vista se estende para além do vale dos pastores. Findo o dia de sábado, retiraram finalmente para a gruta, sendo nessa altura que Maria comunicou a São José  que o menino devia nascer naquele dia, à meia noite, pois era a essa hora que se completavam os nove meses depois da Anunciação do Anjo. A Virgem, ao notificar a São José a hora do nascimento do menino, pediu-lhe que orasse ao Senhor e, rezasse também pelos homens de coração duro que lhes recusaram hospedagem.

Ao pôr do sol, que é o fim do dia de sábado, São José voltou à cidade, donde trouxe alguns alimentos, uma escudela e outros utensílios domésticos e juntos tomaram a última refeição daquele dia. Como viesse a noite, José acendeu a alâmpada e, à luz dela, entrou em oração no lugar que reservara para dormir junto da entrada, e separado do resto por um leve tapume de esteira. Ao fim de algum tempo, sentindo ruído, foi encontrar a jumentinha. Que regressando das vizinhanças, saltitava de contentamento à porta da gruta.

Como lhe distribuísse feno e a deixasse presa sob o alpendre da entrada, ao voltar, São José encontrou a gruta toda iluminada duma luz sobrenatural, estando a S.Smª Virgem de joelhos e voltada para o lado do oriente. Como Moisés ao ver a sarça ardente, sentindo-se tomado de grande respeito, prostrou a face por terra, adorando ali o Senhor. Palavras do Evangelho:

«Aconteceu, porém, que estando ali, se completaram os dias que devia dar à luz. E deu à Luz o seu Filho primogénito e o envolveu em paninhos e o reclinou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.»

-Quando se aproximava a hora da meia noite, diz Caterina Hemmerich, encontrei a S.Smªa Virgem rodeada de grande claridade e, na hora precisa do menino nascer, vi uma estrada de luz vivíssima baixar do céu e, dentro dela, um movimento de glórias celestes, à semelhança de coros angélicos, que desciam até ao lugar onde Jesus acabava de vir ao mundo. Maria enlevada em êxtase e orando, voltou os olhos para o Menino recém nascido, que, sendo Deus, era também filho seu. Vi que, a seguir, tomando um pano de linho, cobriu com ele o Menino, mas sem lhe tocar. Foi só ao fim de algum tempo que vi Jesus fazer os primeiros movimentos e chorar. Nessa altura é que a sua mão o tomou nos braços e o embrulhou no mesmo pano, com que o acabava de cobrir. Assentada já, envolveu-se a ela própria e ao menino, num manto, que tinha ao lado.

Decorrera uma boa hora sobre estes acontecimentos, quando Maria chamou por São José, que no seu cubículo, continuava em oração prostrado por terra. Com a alma repleta de humildade e alegria, São José tomou nos braços o dom do Altíssimo, que Maria lhe apresentou. Em volta, vários anjos, com forma humana, prostrando-se adoravam Jesus. Maria tinha somente quatro panos e com eles enfaixou o menino que depois, colocou na manjedoura, onde sobre o feno, São José acabava de estender uma cobertura. Ali, junto do Menino sobre as palhas, Maria e José, chorando cantavam hinos ao Senhor.

Este lugar ficava à direita do corredor da entrada e num alargamento da gruta, destinado a estábulo de animais. Foi ao pé da manjedoura que São José preparou de novo o leito para Maria. Ali a vi, diz a piedosa agostinha, nos primeiros dias, assentada, de pé ou de joelhos e, também deitada de lado, dormindo. Mas nunca parecendo doente ou aparentando fadiga.

«Nequela noite em que o Senhor nasceu, vi, diz Caterina Hemmerich, grandes manifestações de alegria em muitos lugares da terra. É assim que, os homens d ebem sentiram na alma inexplicável contentamento, enquanto os maus tremiam, cheios de pavor. Os animais, as árvores, as flores, movimentando-se uns e espalhando aromas ao largo as outras, manifestavam todos grande júbilo, de harmonia com os dons que de Deus receberam. Vi rebentarem novas fontes de água, sendo uma ao norte da colina onde Jesus nascera; enquanto que, àquela mesma hora, o céu de Belém se tornou de cor sombria, rubro escura. Sobre a gruta e para o lado do vale dos pastores, pairava uma nuvem límpida, cheia de claridade e brilho.»

-Ao nascente da cidade e a légua e meia da gruta, erguia-se uma colina com plantações de vinhas. Era nela que viviam os três pastores maiorais, chefes de outros que estavam guardando os rebanhos mais ao largo. A pouca distância dali, erguia-se uma torre de madeira, assente em blocos de pedra. Era a chamada torre dos pastores, e do alto dela é que observavam a posição dos rebanhos e davam sinal de alarme por meio de tubas córneas, quando apareciam à vista salteadores ou gente de guerra. À hora em que Jesus nasceu, vi os três pastores olharem em roda, surpreendidos pela beleza daquela noite e , mais ainda, pelo clarão de luz que partia da gruta de Belém. Foi nesta altura que um anjo, no meio duma estrada de luz, lhes anunciou a vinda do Redentor.

Palavras do Evangelho: E, naquela mesma região, estavam uns pastores velando alternadamente e guardando nas vigílias da noite o seu rebanho. E eis que se apresentou diante deles um anjo do Senhor e a claridade de Deus os cercou de resplendor e tiveram grande temor. Porém o anjo lhes disse: « Não temais, porque eis aqui vos anuncio um grande gozo, que o será para todo o povo: É que vos nasceu na cidade de David, o Salvador, que é Cristo Senhor. E é este o sinal para vós: achareis um menino envolto em paninhos e posto em uma manjedoura ». E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste, louvando a Deus e dizendo: GLÓRIA A DEUS NO MAIS ALTO DOS CÉUS, E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE.

– E aconteceu que depois que os anjos se retiraram deles para o céu, os pastores falavam entre si dizendo: -«Passemos até Belém e vejamos que é isto que sucedeu, que é o que o Senhor nos mostrou». E vieram a toda a pressa e acharam a Maria e José e o Menino posto na manjedoura. E vendo isto, conheceram a verdade do que se lhes havia dito acerca deste Menino. E todos os que ouviram falar, se admiraram do que lhes haviam dito os pastores. Maria porém, conservava todas estas palavras no seu coração.

Nota:

A festa do nascimento do Salvador, sendo uma das principais do ano litúrgico, não foi celebrada sempre na mesma data. No Ocidente, o Papa Júlio I fixou-a definitivamente a 25 de Dezembro.

Os motivos que levaram o pontífice referido a optar por aquele dia, são de ordem moral, como é fácil de ver. A 25 de Dezembro celebravam os pagãos de Roma a sua festa do “sol novos”, parecida com a da lua nova dos judeus. Com a solenidade do sol novo, comemoravam pois o renascimento do grande astro e início do crescimento dos dias. Estabelecendo a solenidade cristã do Nascimento do Salvador, nesse dia, a Igreja deu o último golpe nas festas pagãs, que foram substituídas pelo Nascimento de Cristo. As Igrejas do Oriente celebraram o Nascimento do Senhor em épocas diferentes. Umas, como a dos arménios, festejavam-no a 6 de Janeiro, juntamente com a Epifânia. Outras, segundo o testemunho de São Clemente de Alexandria, estendiam a data desta solenidade até 25 de Abril e 15 de Maio.

(Cenáculo da SSmª Trindade)

 

 

 

 

 

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