Mensagem do Papa Francisco, Quaresma 2018.

pope_3.jpg.size.custom.crop.1086x734Amados irmãos e irmãs!
Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, “SINAL SACRAMENTAL DA NOSSA CONVERSÃO”(Missal Romano, I Domingo da Quaresma, Oração de Colecta), que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.
Com a presente mensagem desejo, este ano também, ajudar toda a Igreja a viver, neste tempo de graça, com alegria e verdade; faço-o deixando-me inspirar pela seguinte afirmação de Jesus, que aparece no evangelho de Mateus:-“Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos” (24, 12).
Esta frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá a Paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenómenos espaventoso, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.

  OS FALSOS PROFETAS

1) Escutemos este trecho, interrogando-nos sobre as formas que assumem os falsos profetas?
Uns assemelham-se a ” ENCANTADORES DE SERPENTES”, ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quando filhos de Deus acabam encadeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade!

Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!

2) Outros falsos profetas são aqueles “CHARLATÃES” que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes:  a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido!
Estes impostores, ao mesmo tempo que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais preciso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demónio, que é ” mentiroso e pai da mentira” ( jo 8,44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verifica se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas.
É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rasto bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente o nosso bem.

UM CORAÇÃO FRIO

Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de gelo; (“Imperador do reino em dor tamanho| saía a meio ao gelo baço” ( Inferno XXXIV, 28-29). habita no gelo do amor sufocado. Interrogar-nos então: Como se resfria o amor em nós? quais são os sinais indicadores de que o amor corre o risco de se apagar em nós ?
O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, ” raiz de todos os males” ( 1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n’Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos.(“É curioso, mais muitas vezes temos medo da consolação, medo de ser consolados. Aliás, sentimo-nos mais seguros na tristeza e na desolação. Sabeis porque? Porque, na tristeza, quase nos sentimos protagonistas; enquanto, na consolação, o protagonista é o Espírito Santo” ( Angelus, 7\XII|2014).
Tudo isso se permuta em violência que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça para as nossas “certezas”: o bebé nascituro, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expectativas.

A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor; a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guarda os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus — que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória — são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte.

E o amor resfria-se também nas nossas comunidades: na Exortação apostólica Evangelli gaudium procurei descrever os sinais mais evidentes desta falta de amor. São eles acedia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário. (Nn. 76-109).

QUE FAZER?
Se porventura detectamos, no nosso íntimo e ao redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do remédio por vezes amargo da verdade, a igreja, nossa mãe e mestra, oferece, neste tempo de quaresma, O REMÉDIO DOCE DA ORAÇÃO, DA ESMOLA E DO JEJUM.

1- DEDICANDO MAIS TEMPO À ORAÇÃO, POSSIBILITAMOS AO NOSSO CORAÇÃO DESCOBRIR AS MENTIRAS SECRETAS, COM QUE NOS ENGANAMOS A NÓS MESMOS, para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida.

2- A PRÁTICA DA ESMOLA LIBERTA-NOS DA GANÂNCIA E AJUDA-NOS A DESCOBRIR QUE O OUTRO É NOSSO IRMÃO: AQUILO QUE POSSUO, NUNCA É SÓ MEU. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão que vivemos na Igreja. A este propósito, faço minhas palavras exortativo de São Paulo aos Coríntio, quando os convidava a tomar parte da colecta para a comunidade de Jerusalém: “Isto é o que vos convém” (2 Co. 8,10). Isto vale de modo especial na Quaresma, durante a qual muitos organismos recolhem colectas a favor das Igrejas e populações em dificuldade. Mas como gostaria também, que no nosso relacionamento diário, perante cada irmão que nos pede ajuda, pensássemos: aqui está um apelo da Providência divina; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade?

3- POR FIM, O JEJUM TIRA À NOSSA VIOLÊNCIA, DESARMA-NOS, CONSTITUINDO UMA IMPORTANTE OCASIÃO DE CRESCIMENTO. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos  não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome. Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a acção, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!

O fogo da Páscoa
Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender com ardor o caminho da Quaresma, apoiados na esmola, no jejum e na oração. Se por vezes parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus! Ele sempre nos dá novas ocasiões, para podermos recomeçar a amar.
Ocasião propícia será, também este ano, a iniciativa “24 horas para o Senhor”, que convida a celebrar o sacramento da Reconciliação num contexto de adoração eucarística. Em 2018, aquela terá lugar nos dias 9 e 10 de Março — uma sexta-feira e um sábado – , inspirando-se nestas palavras do Salmo 130: “Em Ti, encontramos o perdão” (v. 4). Em cada diocese, pelo menos uma Igreja ficará aberta durante 24 horas consecutivas, oferecendo a possibilidade de adoração e da confissão sacramental.
Na noite da Páscoa, reviveremos o sugestivo rito de acender o círio pascal: a luz, tirada do “lume novo”, pouco a pouco expulsará a escuridão e iluminará a assembleia litúrgica. “A Luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipe as trevas do coração e do espírito”(Missal Romano, Vigília Pascal, Lucernário.) para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor.
Abençoo-vos de coração e rezo por vós. Não vos esqueçais de rezar por mim.
Vaticano, 1 de Novembro de 2017 (Solenidade de Todos os Santos-Papa Francisco).

 

Catequese do Papa Francisco sobre a proximidade de Deus aos homens (Audiência Geral a 26 de Abril 2017).

O Papa Francisco destacou, na Audiência Geral desta quarta-feira, a proximidade de Deus aos homens e sua preocupação pelo bem-estar de suas criaturas. O Santo Padre recordou que, em seu peregrinar pelo mundo, a humanidade não está sozinha, pois Deus cumpriu suas promessas em Jesus Cristo e colocou nele a salvação dos homens.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
“Eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Estas últimas palavras do Evangelho de Mateus recordam o anúncio profético que encontramos no inicío: “A ele será dado o nome de Emanuel, que significa Deus connosco ” ( Mt 1, 23; cfr Is 7, 14 ). Deus estará connosco, todos os dias, até o fim do mundo. Jesus caminhará connosco, todos os dias, até o fim do mundo. Todo Evangelho está em torno destas duas citações, palavras que comunicam o mistério de Deus cujo nome, cuja identidade é está-com: não é um Deus isolado, é um Deus-com, em particular connosco, isso é, com a criatura humana. O nosso Deus não é um Deus ausente, levado por um céu distante; é, em vez disso, um Deus “Apaixonado” pelo homem, tão ternamente amante a ponto de ser incapaz de se separar dele. Nós humanos somos hábeis em cortar ligações e pontos. Ele, em vez disso, não. Se o nosso coração se esfria, o seu permanece sempre incandescente. O nosso Deus nos acompanha sempre, mesmo se por ventura nós nos esquecêssemos d’Ele.

Na linha que divide a incredulidade da fé, decisiva é a descoberta de ser amados e acompanhados pelo nosso Pai, de não sermos nunca deixados sozinhos por Ele.
A nossa existência é uma peregrinação, um caminho. Também quantos são movidos por uma esperança simplesmente humana, percebem a sedução do horizonte, que os leva a explorar mundos que ainda não conhecem. A nossa alma é uma alma migrante. A Bíblia está cheia de histórias de peregrinos e viajantes. A vocação de Abraão começa com este comando: “Sai da tua terra” (Gen 12, 1). E o patriarca deixa aquele pedaço de mundo que conhecia bem e que era um dos berços da civilização do seu tempo. Tudo conspirava contra o significado daquela viagem. No entanto, Abraão parte. Não se torna homens e mulheres maduros se não se percebe a atracção do horizonte: aquele limite entre o céu e a terra que pede para ser alcançado por um povo de caminhantes.

Em seu caminho no mundo, o homem nunca está sozinho. Sobretudo o cristão nunca se sente abandonado, porque Jesus nos assegura de não nos esperar somente ao término da nossa longa viagem, mas de nos acompanhar em cada um dos nossos dias.
Até quando vai durar o cuidado de Deus para com o homem? Até quando o Senhor Jesus, que caminha connosco, até quando cuidará de nós? A resposta do Evangelho não deixa margem para dúvidas: até o fim do mundo!
Passarão os céus, passará a terra, serão canceladas as esperanças humanas, mas a Palavra de Deus é maior que tudo e não passará. E Ele será o Deus connosco, o Deus Jesus que caminha connosco. Não haverá dia na nossa vida em que deixaremos de ser preocupação para o coração de Deus. Mas alguém poderia dizer: ” Mas, o que está dizendo? ” Digo isso: não haverá dia na nossa vida em que deixaremos de ser preocupação de Deus. Ele preocupa-se connosco e caminha connosco. E por que faz isso? Simplesmente porque nos ama. Entende isso? Ama-nos! E Deus, seguramente providenciará todas as nossas necessidades, não nos abandonará na hora da prova e da escuridão. Esta certeza pede para aninhar-se na nossa alma para não apagar jamais. Alguém a chama com o nome de “Providência”. Isso é, a proximidade de Deus, o amor de Deus, o caminhar de Deus connosco se chama também “Providência de Deus”: Ele provê na nossa vida.

Não por acaso, entre os símbolos cristãos de esperança há um que eu gosto tanto: a âncora. Essa exprime que a nossa esperança não é vaga; não deve ser confundida com sentimento momentâneo de quem quer melhorar as coisas deste mundo de forma irrealista, contando apenas com a própria força de vontade. A esperança cristãs, de facto, encontra a sua raiz não na atracção do futuro, mas da segurança daquilo que Deus nos prometeu e realizou em Jesus Cristo. Se Ele garantiu não nos abandonar nunca, se o início de toda vocação é um “Segue-me”, com que Ele nos assegura estar sempre diante de nós, por que, então, temer? Com esta promessa, os cristãos podem caminhar por toda parte. Mesmo atravessando porções de mundo ferido, onde as coisas não vão bem, nós estamos entre aqueles que mesmo lá continuam a esperar. Diz o salmo: “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo” (Sal 23,4). É justamente onde se espalha a escuridão que é preciso ter acesa uma luz. Voltemos à âncora. A nossa fé é a âncora no céu. Nós temos a nossa vida ancorada no céu. O que devemos fazer? Segurar na corda: está ali. E seguirmos adiante porque estamos seguros de que a nossa vida tem como uma âncora no céu, sobre aquela costa onde chegaremos.

Certo, se fôssemos confiar somente nas nossas forças, teríamos razões para nos sentirmos desiludidos e derrotados, porque o mundo muitas vezes se mostra refractário às ligações de amor. Prefere, tantas vezes, as leis do egoísmo. Mas se em nós sobrevive a certeza de que Deus não nos abandona, que Deus nos ama e nós e a este mundo com ternura, então muda imediatamente a perspectiva. “Homo viator, spe erectus”, diziam os antigos.
Ao longo do caminho, a promessa de Jesus ” Eu estou convosco” nos faz ficar de pé, erectos, com esperança, confiando que o Deus bom já está trabalhando para realizar aquilo que humanamente parece impossível, porque a âncora está na praia do céu.
O santo povo de Deus é gente que está em pé – “homo viator” – e caminha, mas em pé, “erectus”, e caminha na esperança. E onde quer que vá, sabe que o amor de Deus o precedeu: não há parte do mundo que escape da vitória de Cristo Ressuscitado. E qual é a vitória de Cristo Ressuscitado? A vitória do amor. Obrigado.( Papa Francisco.)

 

 

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