Ensinamentos de Santa Teresa de Jesus

Devido ao aniversario dos 500 anos do nascimento de Santa Teresa de Jesus, colocaremos  alguns textos, sobre o ensino de uma das maiores doutoras da Igreja Católica.

Santa Teresa ensina-nos a orar:
”Dos que começam a ter oração, podemos dizer que são os que tiram água do poço.  É  muito à sua custa, porque se hão-de cansar em recolher os sentidos e, como estão acostumados a andar distraídos, é forte trabalho.
O que pretendo dar a entender é o que podemos por nós mesmos adquirir. Podemos em certo modo ajudar-nos a nós mesmos: pensar, esquadrinhar o que o Senhor passou por nós move-nos à compaixão. Pensar na glória que esperamos e no amor que o Senhor nos teve e na sua ressurreição, infunde em nós gozo.
Pode neste estado fazer muitos actos para se determinar a trabalhar muito por Deus e despertar o amor; assim como para ajudar a crescer as virtudes.
Pode representar-se que está diante de Cristo e acostumar-se a enamorar-se muito da sua sagrada humanidade, trazendo-O sempre consigo. E fale com Ele.
E pedi-lhe ajuda para as necessidades, e queixar-se-lhe dos trabalhos. É alegrar-se com Ele nos contento, e não O olvidar por eles. Isto sem procurar orações compostas, mas palavras conforme aos seus desejos e necessidades. É excelente maneira de aproveitar e muito em breve. Quem trabalhar em trazer consigo esta preciosa companhia e se aproveitar muito dela e de verás cobrar amor a este Senhor, a Quem tanto devemos, eu dou por aproveitado. Este modo de trazer a Cristo connosco aproveita em todos os estados e é um meio seguríssimo para ir aproveitando no primeiro e chegar em breve ao segundo grau de oração”.(V 11,9 ; 12, 1-3)

Como procurar Recolhimento: diz-nos Teresa;
”Aqui começa a recolher-se a alma, e toca já em coisa sobrenatural, porque de nenhuma maneira ela o pode conseguir, por mais diligências que faça. Aqui a água está perto porque a graça dá-se mais claramente a conhecer à alma.
Esta água de grandes bens e mercês que o Senhor dá aqui, faz crescer as virtudes muito mais sem comparação do que na oração anterior. Começa a Sua Majestade a comunicar-se a esta alma, e quer que ela sinta como se lhe comunica. Deus sempre nos entende e está connosco. Quer este Imperador e Senhor nosso que compreendamos aqui que nos entende e o que faz em nós a sua presença. Nesta oração não há que raciocinar, mas somente conhecer com simplicidade o que somos e apresentar mo-nos assim diante de Deus.”
”É pois, esta oração, uma centelhazita de Seu verdadeiro amor que o Senhor começa a acender na alma, e Ela quer que a alma vá compreendendo que coisa é esse regalado amor. Quisera eu muito avisar que procurem não esconder o talento desta experiência pois parece que Deus as quer escolher para proveito de outras muitas, em especial nestes tempos em que há falta de amigos fortes de Deus para sustentar os fracos.” (V.14, 5-6; 15, 4-5.8)

Santa Teresa ensina como se colocar nos braços de Deus, durante a oração, diz-nos a Santa;
”Este modo de oração parece-me união muito evidente de toda a alma com Deus. Quando Deus dá tão alta oração como esta, a alma pode abandonar-se de todo em todo nos braços de Deus. Já não é senhora de si mesma. Está dada de todo ao Senhor. Nesta oração o Senhor faz tão bem de Hortelão, que querendo que a alma tenha trabalho algum, senão o de se deleitar em que comecem as flores( virtudes) a dar perfume. É tal o Hortelão que enfim, como criador da água, dá-se sem medida. O que a pobre alma, com trabalho e cansaço do entendimento, não pôde porventura conseguir em vinte anos, fá-lo este Hortelão celestial num instante; e a fruta cresce e amadurece de maneira que a alma se pode sustentar do seu horto, querendo-o o Senhor. Enfim; as virtudes ficam agora mais fortes que na passada oração de quietude. Aqui só têm habilidades as potências para se ocuparem todas em Deus.Dizem-se aqui muitas palavras em louvor de Deus, sem ordem nem conserto, se o mesmo Senhor as não conserta. Quisera a alma dar vozes em louvores e está que não cabe em si. Já se abrem as flores, já começam a dar seu olor. A alma já não quereria viver em si senão em Vós.”( V. 16 3-4; 17, 1-3)

Neste grau de oração Santa Teresa nos diz como vencer as dificuldades e tentações;
”O que é a união, à se sabe: é de duas coisas divididas fazer-se uma. Oh! Senhor meu, como sois bom! Bendito sejais para sempre! Louvem-Vos, Deus meu, todas as coisas, pois assim nos amastes, a podermos com verdade falar desta comunicação que, ainda estando neste desterro, tendes com  as almas. Dais como quem sois. Oh! liberdade infinita, quão magníficas são as Vossas obras! Falemos agora desta água que vem do Céu, par com a sua abundância encher e fartar todo este horto. Estando assim a alma buscando a Deus, sente-se com deleite grandíssimo e suave, quase de todo desfalecer… Estava eu pensando, depois de comungar e de sair desta mesma oração que descrevo, quando quis escrever isto: o que fazia a alma neste tempo. Disse-me o Senhor estas palavras:”Desfaz-se toda filha, para mais se meter em Mim: já não é ela que vive, senão Eu”. Como pode compreender o que entende, é um não entender entendendo.
Só poderei dizer que se representa a alma estar junta com Deus e fica uma certeza que de nenhuma maneira se pode deixar de crer. A vontade deve estar bem ocupada em amar, mas não compreende como ama. O entendimento, se entende, não percebe como entende; pelo menos, não pode compreender nada do que entende. É de notar e entender que esta água do céu, este grandíssimo favor do Senhor, deixava sempre a alma com grandes ganhos. A alma fica tão animosa que, se naquele momento a fizessem em pedaços por Deus, ser-lhe-ia grande consolo.  Ali são as promessas e determinações heróicas, a viveza dos  desejos, o começar a aborrecer o mundo e ver muito claramente sua vaidade. Está muito mais aproveitada e elevada de que nas orações passadas e a humildade mais crescida. É que vê nitidamente que, para tão excessiva e grandiosa mercê, não houve diligências suas nem teve parte em a atrair ou a possui-la. Com clareza vê-se indigníssima, e vê a sua miséria, porque, em aposento onde entra muito sol, não há teia de aranha escondida. Fica-se a sós com Ele; que há-de fazer senão amá-lo? Representa-se-lhe depois a sua vida passada e a grande misericórdia de Deus, com grande verdade.
Bendito sejais, Senhor meu, que duma lama tão suja como eu, fazeis água tão clara que sirva para a vossa mesa! Bem creio eu que alma que Deus traz a este estado- se ela não deixa de todo em todo a Sua Majestade, Ela não a deixará de favorecer nem a deixará perder. Mas quando cair, como tendo dito, olhe, olhe por amor do Senhor, não a engane o demónio levando-a a deixar a oração como fez a mim, por falsa humildade, como já tenho dito e muitas vezes como o quisera dizer. Confie na bondade de Deus, que é maior de que todos os males que podemos fazer e não se lembra da nossa ingratidão, quando, reconhecendo o que somos, queremos voltar à Sua amizade. Lembrem-se das Sua palavras e vejam o que fez comigo; mais me cansei eu de O ofender, que Sua Majestade de que me perdoar. Nunca Ele se cansa de dar nem se podem esgotar Suas misericórdias; não nos cansemos nós de receber. Seja bendito par sempre, Ámen, e louvem-n’O todas as criaturas .”( V. 18, 3. 14-15; 19, 2. 13-15)

As comparações analógicas de Santa Teresa: Os graus de oração correspondem às quatro possibilidades de regar o jardim da vida espiritual. Oração de recolhimento, de quietude, sono das potências e de união.

Deus é a Fonte de água viva dos contemplativos, enquanto quem se afastou de Deus tornou-se fonte de água poluídas, que envenenam o seu espírito.
A água que rega o jardim das virtudes-flores vem da graça de Deus e produz frutos de bondade, santidade e perfeição. Aqui se coloca a pergunta se bebemos da fonte da graça do nosso baptismo ou bebemos na fonte de nossas paixões ?

O Pai Nosso de Santa Teresa:Oremos;
Pai Nosso;
”Tendes um bom Pai, que o bom Jesus vos dá. Procurai andar de maneira a merecer ser consoladas por Ele e cair nos seus braços.”(C. 27, 6)

Que estais nos Céus;
”Acaso pensais que importa pouco saber o que é o Céu e onde se há-de procurar o vosso Sacratíssimo Pai? Vós já sabeis que Deus está em toda a parte. Portanto, o Céu é onde Deus está, e onde estiver a Sua Majestade ali está toda a glória. Eu tenho na minha casa o Imperador do Céu e a terra, que a ela vem para me fazer mercê recrear-se comigo.
As que puderem recolher-se assim neste pequeno Céu da nossa alma, onde está Aquele que o fez… e a acostumar-se a não olhar nem a estar onde estes sentidos exteriores se distraiam, acreditem que vão por um excelente caminho.”(C. 28, 1-5)

Santificado seja o Vosso nome:
”Sua Majestade viu que, pelo pouco que podemos, não seriamos capazes de santificar, louvar, engrandecer e glorificar como convém o santo nome do Eterno Pai.(C. 30,4)

Venha a nós o Vosso Reino:
”O maior bem que me parece haver no Reino do Céu, juntamente com muitos outros, é o de já não haver inquietação com coisa alguma da terra. Em vez disso, há um sossego e uma glória em si mesmos, um alegrar-se porque todos se alegram, uma paz perpétua, uma grande satisfação interior por ver que todos santificam, louvam e bendizem o nome do Senhor, e ninguém O ofende.”(C. 30,5)

Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no Céu;
”Todos os avisos que vos tenho dado neste livro são para compreenderdes a grande importância de nos darmos totalmente ao Criador e pôr a nossa vontade na sua . Com efeito, enquanto não entregarmos ao Senhor toda a nossa vontade para que se faça em nós tudo conforme à Sua vontade nunca poderemos beber dela.”(C. 32,9)

O pão nosso de cada dia nos dai hoje;
”Ó Senhor Eterno! Como aceitais este pedido? Como permitis? Não repareis no seu Amor, que a troco de cumprir perfeitamente a Vossa vontade em Vosso nome, deixar-se-á partir em pedaços todos os dias (C. 33,4) Oh, valha-me Deus, que grande Amor o do Filho, e que grande Amor o do Pai!” (C. 33,3)

Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido;
”Mais reparai bem, irmãs, que Ele diz ”assim como nós perdoamos”, como sendo uma coisa já feita, como disse. Não vos esqueçais: se uma alma a quem Deus concedeu graças na oração perfeita da contemplação a quem referi, não sai muito determinada a perdoar, e se , de facto, quando chega a ocasião, não perdoa uma ofensa por grave que seja, não há que fiar muito da sua oração.”(C. 36,8)

Não nos deixeis cair em tentação;
”O remédio que  podemos ter, filhas, é o que Sua Majestade nos deu: amor e temor. O amor obrigar-nos-á a apressar o passo. O temor ajudar-nos-á a ver bem onde pomos os pés para não cair pelo caminho onde há tantas coisas em que tropeçar, como é este em que caminhamos todos os que vivemos . Certamente que assim não seremos enganadas.”      (C. 40, 1)

Mais livrai-nos do mal;
”Parece-me que o bom Jesus tem razão ao pedir isto para Si. O pior era ver tantas ofensas que se cometiam contra se Pai, e uma multidão imensa de almas que se perdiam! Se aqui, para uma alma que tenha caridade, isto lhe causa grande sofrimento, então o que não seria para a caridade sem preço nem medida deste Senhor? Por isso tinha muita razão em suplicar ao Pai que o livrasse já de tantos males e sofrimentos e O levasse para o eterno descanso do seu Reino, de quem era legítimo herdeiro.”(C.42,1)

Amém;
”Bendito e louvado seja o Senhor, de quem procedem todos os bens que falamos, pensamos e fazemos! Amém!”(C. 42, 7)

Caminho de Perfeição

Santa Teresa, considera uma tríplice mercê , ou seja benefício, com que Deus a agraciou:
diz: ”Porque uma mercê é o Senhor conceder a mercê, e outra é entender que mercê e que graça, outra é saber dizer e explicar como é”.

A primeira mercê, é a estreita união com Deus, a segunda mercê é ”Entender que mercê é e que graça”; isto é consentida pela fé, e a nível de consciência de uma vivência, adquirida por experiência, num novo conhecimento, numa nova forma de querer viver. Estas duas, primeira e segunda, mercê fazem de Santa Teresa uma testemunha da vida mística cristã. A terceira mercê; diz a Santa: ”Saber dizer e explicar como é”, isto refere-se ao seu magistério junto as suas irmãs, e nos seus escritos, transformou Teresa na mestra da vida espiritual, doutora da da Igreja.

Assim, a experiência transformou-se no fundamento de seu saber e da credibilidade de seu magistério, quando diz:”Nada direi que não tenha experimentado”, ou ”creiam no que digo, porque tenho a experiência, ou ”Sei por experiência que a alma que neste caminho de oração mental começa a caminhar com determinação… percorre grande parte do caminho”; ”tenho experimentado isso muito”,ou ”sei por experiência que é verdade o que digo”. ”Quem tiver experiência do bom espírito entenderá se é de Deus ou do demónio”; referindo-se aos possíveis enganos.
Santo Agostinho diz: ”Pois quem não crê não terá experiência, e quem não tem experiência não conhecerá”; ou seja tudo que nos acontece na vida extraordinários, internos ou esternos , vividos com fé nos oferecem respostas ao amor com que Deus nos presenteia com a sua graça, e transforma em matéria, para uma experiência com Deus.

Santa Teresa aprendeu, graças à conversão, e ao abandono nas mãos de Deus, que o princípio do caminho para Deus está no próprio Deus, que tudo depende da sua presença e tem origem em seu chamamento. Cabe a cada um de nós apenas tomar consciência dessa presença, e consentir nela para que a essa atracção aconteça na alma.

O Caminho de perfeição, ela propõe três passos importantes: amor de uns com os outros, pobreza no sentido do ”desapego de tudo o que é criado” e verdadeira humildade. Como manifestações da união com a vontade de Deus, ela refere, a procura das virtudes correspondentes as nossas obras, que são naturalmente a expressão do amor e da vontade de Deus, que tem que ser posto a prova, e o primeiro passo começa com a oração .

”Este amor que temos a Deus deve ser provado por obras”. ”Não pensemos que tudo está feito chorando muito, mas devemos trabalhar muito e cultivar as virtudes”. ”Aqui somente dois são os pedidos do Senhor: amor à sua Majestade e ao próximo”. 
Santa Teresa mestra da oração , nos ensina muito a cerca de sua intimidade com a Majestade Divina, por isso, da descrição da experiência de Deus e da oração, de sua doutrina, tem muita simplicidade, e autenticidade, e é o centro de todo o seu relacionamento com Deus . Deus, acima e antes de qualquer coisa, na grandeza, na imensidade e na transcendência de seu ser, criador e salvador dos homens.

”Se vos enternecer o coração vê-Lo em tal estado, a tal ponto que não só queirais pôr Nele os olhos, mas até vos folgueis de lhe falar, não repetindo orações compostas, mas desabafando as penas de vosso coração… o que Ele muito estima… podereis dizer-Lhe: Ó Senhor do mundo e verdadeiro Esposo meu!
Tão necessitado estais, Senhor meu e Bem meu, que vos dignais admitir tão pobre companhia, como é a minha… e vejo em vosso semblante que vos consolais comigo?
Mas, como é possível, Senhor, que os anjos vos deixem tão sozinho, e até vosso Pai não vos console? Se, realmente, Senhor, tudo quereis sofrer por mim, que vale isto que vós estou sofrendo? De que me queixo?
Já me envergonho, depois que vos vi em tal estado; quero padecer, Senhor, todos os trabalhos que me sobrevierem, e tê-los por grande bem, afim de vos imitar de algum modo. Juntos caminhemos, Senhor; por onde fordes, tenho eu de ir; por onde passardes, hei de passar ”( Caminho de perfeição, 26, 6).

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