Carta de São Francisco de Assis

10-04-sao-francisco-de-assisNo último ano da sua vida (1225-26) S. Francisco de Assis escreveu uma longa carta a todos os fieis para os empenhar numa vida santa. Nesta carta S. Francisco nos ensina um cristianismo com compromissos, segundo o Espírito Santo, e não segundo a vontade da carne. É um guia precioso para aqueles que desejam praticar com fidelidade os seus ensinamentos franciscanos, de segmento a Jesus, Caminho, Verdade, e Vida.

CARTA A TODOS OS FIÉIS
Em nome do Senhor, Pai e Filho e Espírito Santo. Ámen.

A todos os cristãos, religiosos, clérigos e leigos, homens e mulheres, a todos os que habitam  pelo mundo além, o irmão Francisco, seu servo e súbdito, envia reverentes saudações, paz verdadeira do céu e caridade sincera no Senhor.

Como servo de todos, a todos tenho obrigação de servir e ministrar as palavras do meu Senhor, cheias de suave perfume. E considerando comigo que, devido às enfermidades e fraqueza do meu corpo, me é impossível visitar pessoalmente a  cada um de vós, resolvi comunicar-vos, por meio desta carta e de mensageiros, as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o Verbo do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito de vida (Jo 6,64). todas as coisas foram feitas (Jo 1,3), mas pelos nossos pecados, deixando-nos seu exemplo, para seguirmos seus passos (1Pe, 2-21). E quer que todos sejamos salvos por Ele, e que O recebamos com um coração puro e num corpo casto. Todavia, poucos são os que o querem receber e ser salvos por Ele, não obstante o seu julgo ser suave e o seu peso leve (Mt 11, 30).

MALDITOS OS QUE RECUSAM OS MANDAMENTOS; BENDITOS OS QUE OS CUMPREM.

Os que se recusam provar como o Senhor é suave (Sl 33,9) e mais amam as trevas do que a luz (Jo 3, 19), negando-se a cumprir os mandamentos de Deus, têm a sua maldição. Deles foi dito pelo Profeta: Malditos os que se apartam dos teus mandamentos (Sl 118,21). Pelo contrário, que felizes e benditos são os que amam o Senhor, e praticam o que o mesmo Senhor diz no Evangelho: Amarás ao Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, e ao teu próximo como a ti mesmo (Mt 22,37 e 39).

AMEMOS E ADOREMOS A DEUS.

Sim, amemos a Deus e adoremo-Lo com um coração puro e alma simples, porque é isso o que Ele mais deseja quando afirma: Os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e verdade (Jo 4, 23). Porque todos os que o adoram, devem adorá-LO em espírito e verdade (Jo 4, 24). Dia e noite lhe dirijamos louvores e preces, dizendo: Pai nosso, que estais nos céus, porque importa orar sempre e sem cessar (Lc 18, 1).

DA CONFISSÃO E COMUNHÃO.

Devemos, além disso, confessar ao sacerdote todos os nossos pecados, e receber de suas mãos o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quem não come a sua carne e não bebe o seu sangue, não pode entrar no reino de Deus ( Jo 3,5). Mas coma e beba dignamente, porque quem indignamente o recebe, come e bebe a sua própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor (1Cor 11,29), isto é, não o distinguindo dos outros alimentos. E façamos dignos frutos de penitência (Lc 3,8). E amemos ao nosso próximo como a nós mesmos (Mt 22, 39). E quem não quiser ou puder amá-lo como a si mesmo, ao menos não lhe faça mal, mas sim, lhe faça o bem.

DA MISERICÓRDIA DOS PODEROSOS E DO VALOR DA ESMOLA.

Os que receberam o poder de julgar os outros, julguem-nos com misericórdia, como querem que o Senhor os julguem a eles. Porque sem Misericórdia será julgado aquele que não usou de misericórdia (Tg 2,13). Sejamos, pois, caridosos e humildes, e demos esmola, porque a esmola lava as almas das imundície do pecado (Tb 31 ,4, 11).
Os homens,de verdade, perdem tudo o que neste mundo deixam, mas levam consigo o preço da sua caridade e as esmolas que houverem feito, e delas receberão do Senhor recompensa e digna remuneração.

DO JEJUM CORPORAL E DA PENITÊNCIA.

Devemos também jejuar e abster-nos de vícios e pecados (Ecl 3, 32) e de excessos na comida e bebida. Devemos ser católicos; frequentar as igrejas e reverenciar os sacerdotes, não tanto por si, se são pecadores, mas pelo ofício que têm de administrar o santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que eles sacrificam no altar, e recebem e distribuem aos demais.
E firmemente nos compenetremos disto: Que ninguém se pode salvar, senão pelo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelas santas palavras do Senhor, que os sacerdotes proclamam, pregam e administram, e só a eles pertence administrar e não aos outros.
E de um modo especial os religiosos que renunciaram ao mundo, lembrem-se que estão obrigados a fazer mais e melhores coisas, sem no entanto omitir as demais (Lc 11, 42).

DA NEGAÇÃO DE SI MESMO, DO AMOR AOS INIMIGOS E DA OBEDIÊNCIA.

Devemos aborrecer o nosso corpo com seus vícios e pecados, pois o Senhor diz no Evangelho, que todos os vícios e pecados procedem do coração (Mt 15, 38 18-19; Mc 7, 23).
Devemos amar aos nossos inimigos, e fazer bem àqueles que nos odeiam (Mt 5, 44; Lc 6, 27).
Devemos observar os preceitos e conselhos de nosso Senhor Jesus Cristo.
Devemos, além disso, renunciar a nós mesmos e submeter o nosso corpo ao julgo da servidão e da santa obediência, conforme prometemos ao Senhor. Mas ninguém está obrigado por obediência a obedecer àquele que lhe manda o que é pecado ou delito.

DA AUTORIDADE COMO SERVIÇO.

Porém, aquele que tem ofício para ser obedecido, e que é tido por maior em dignidade, seja como menor (Lc 22, 26) e servo dos demais irmãos e use com eles de misericórdia, como quereria que com ele usassem, se estivesse no lugar deles. Nem, pelo pecado de um irmão, contra ele se irrite, mas, com toda a paciência e humildade, bondosamente o admoeste e encoraje.

DE COMO CADA UM SE DEVE JULGAR.

Não devemos ser sábios e prudentes segundo a carne (1Cor 1, 26), mas procuremos, sim, ser simples, humildes e puros. E façamos de nossos corpos objecto de opróbrio e desprezo, porque todos, por nossos pecados, somos desgraçados e pútrido, fétidos e vermes, como diz o Senhor pelo Profeta: Eu sou um verme, e não um homem, o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe ( Sl 21, 7). Nunca devemos desejar estar acima dos outros, mas antes devemos ser servos e sujeitos a toda a humana criatura por amor de Deus (Pe 2, 13).

DA FELICIDADE DOS FILHOS DE DEUS.

E todos os que assim procederem, e perseverarem até ao fim, sobre eles repousará o espírito do Senhor (Is 11, 2) e neles  fará morada e mansão (Jo 14, 23). E serão Filhos do Pai Celeste (Mt 5, 45), cujas obras fazem. E são esposos, irmãos e mães do nosso Senhor Jesus Cristo.
Somos esposos, quando pelo Espírito Santo a alma se une a Jesus Cristo.
Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade do seu Pai que está nos céus(Mt 12, 50).
Somos suas mães, quando o levamos no nosso coração e no nosso corpo, pelo amor e pela pura e sincera consciência, e o damos à luz pelas santas obras que devem brilhar aos olhos dos outros para seu exemplo (Mt 5, 6).
Oh! como é glorioso ter no céu um Pai santo e grande!
Oh! como é santo ter um esposo consolador formoso e admirável!
Oh! como é santo e agradável ter um tal irmão e filho, aprazível, humilde, pacífico, doce e mais que tudo desejável, que deu a vida pelas suas ovelhas (Jo 10, 15), e por nós pediu ao Pai, dizendo: Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste (Jo 17,11). Pai, todos os que me deste no mundo, eram teus, e tu mos deste (Jo 17, 6). E as palavras que tu me deste, a eles as dei; e eles as receberam e ficaram sabendo que, de verdade, eu vim de ti, e creram que tu me enviaste (Jo 17, 9); abençoa-os (Jo 17,17). Também eu por eles me santifico, para que sejam santificados (Jo 17,19) na unidade, como nós o somos (Jo17,11). E, Pai, eu quero que onde eu estou, ali estejam eles comigo, para que vejam a minha glória (Jo 17,24) no teu reino (Mt 20,21).

E, pois, tanto sofreu por nós e tantos bens nos deu e de futuro nos dará, que toda a criatura no céu e na terra e no mar e nos abismos, renda a Deus louvor, glória e honra e bênção (AP 5,13); porque é ele a nossa virtude e fortaleza, ele que só é o bom (Lc 18, 19), ele só o altíssimo, ele só o omnipotente e  admirável e glorioso, ele só o santo, louvável e bendito pelos séculos dos séculos sem fim. Ámen.

DOS QUE NÃO FAZEM PENITÊNCIA.

Mas todos aqueles que não vivem em penitência, e não recebem o Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, antes, sim, vivem em vícios e pecados; e que correm atrás das más concupiscências e maus desejos e não cumprem o que prometeram; e com o seu corpo são escravos do mundo e dos desejos carnais e dos cuidados e solicitude deste século e das preocupações desta vida, enganados pelo demónio, de quem são filhos e cujas obras fazem (Jo 8, 41), esses todos são cegos, porque não vêem a luz verdadeira que é nosso Senhor Jesus Cristo. Não têm sabedoria espiritual, porque não têm em si o Filho de Deus, que é a verdadeira sabedoria do Pai. Deles foi dito: A sua sabedoria foi devorada (Sl 106, 27). Veem, conhecem, sabem e todavia fazem o mal e deliberadamente perdem as suas almas.

Olhai, ó cegos enganados pelos vossos inimigos que são carne, o mundo e o demónio, que, se é doce praticar o pecado e amargo servir a Deus, é porque do coração dos homens brotam e procedem (Mc 7, 21. 23) todos os vícios e pecados conforme se diz no Evangelho. E nenhum bem possuís neste mundo nem no outro. Julgais que haveis de possuir por muito tempo as vaidades deste mundo, estais enganados, porque virá o dia e a hora em que não pensais, e que desconheceis e ignorais.

DOS DOENTES QUE NÃO FAZEM PENITÊNCIA

E então o corpo vos cairá doente, a morte avança, vêm os parentes e amigos e dizem:

-Faz as tuas últimas disposições.

E a esposa e os filhos, e os parentes e amigos, fingem que choram. Ele olha e , vendo-os a chorar, levado de um mau impulso, pensando dentro de si, diz: – Eis que deixo em vossas mãos a minha alma, o meu corpo e tudo quanto possuo.

É na verdade maldito esse homem que confia e põe em tais mãos a sua alma e o seu corpo e os seus bens, pois dele diz o Senhor pelo profeta: Maldito o homem que confia noutro homem (Jr 17, 5).

Mandam então vir o sacerdote e este pergunta-lhe: _ Queres receber a penitência de todos os teus pecados?

E ele responde: – Quero, sim.

-Queres satisfazer pelas faltas cometidas, reparar as injustiças e fraudes com os teus bens, conforme possas?

E ele responde: – Não!

E pergunta o sacerdote: – Porque não?

– Porque tudo deixei nas mãos de meus parentes e amigos.

E começa de perder a fala, e assim se fina aquele infeliz. Pois saibam todos que, de qualquer maneira e seja onde for que um homem morra em pecado mortal sem reparação condigna, e podendo satisfazer o não fez, vem um demónio arrancar-lhe a alma do corpo com tanta angústia e tribulação, como só a quem o experimentou é dado bem conhecer. E todos os talentos e poder, ciência e sabedoria, que julgava ter, lhe serão tirados (Mc 4, 25). E os parentes e amigos tomam conta da herança, e entre si a dividem, e depois dizem:

– Maldita seja a sua alma, pois mais nos pudera ter deixado, mais pudera ter adquirido para nós do que aquilo que adquiriu.

Entretanto os vermes lhe vão comendo o corpo. E assim se perde a alma o corpo nesta vida que é breve, e cai no inferno, onde sem fim será atormentado.

Súplica final e Bênção

Em nome do Pai e do Filho

e do Espírito Santo. Ámen.

A todos quantos receberem esta carta, eu, o irmão Francisco, menor servo vosso, vos peço e suplico pela caridade que é Deus (Jo 4, 16), e com o desejo de vos beijar os pés, que vos sintais obrigados a acolher, observar e guardar com humildade e amor estas palavras e as demais de nosso Senhor Jesus Cristo. E todos aqueles e aquelas que as receberem com benevolência, lhes derem atenção e enviarem cópias a outros, se no seu cumprimento perseverarem até ao fim (Mt 24, 13), que sobre eles venha a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

 

CÂNTICO DAS CRIATURAS

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor, a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.

A ti só, Altíssimo, se hão -de prestar e nenhum homem é digno de te nomear.

Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor Sol, o qual faz o dia e por ele nos alumia.E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmâ lua e as estrelas: no céu as acendeste, claras, e preciosas, e belas.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é tão útil, e humilde, e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual alumias a noite, e ele é belo e jucundo e robusto e forte.

Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com flores coloridas, e verduras.

Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam, por teu amor e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, pois por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, a qual nenhum homem vivente pode escapar. Ai daqueles que morrem em pecado mortal!

Bem-aventurados aqueles que cumpriram tua santíssima vontade, porque a segunda morte não nos fará mal.

Louvai e bendizei ao meu Senhor, e dai-Lhe graças e servi-O com grande humildade.

Amém.

ÁS SEIS SENHORAS (São Francisco de Assis)

Salve, rainha Sabedoria, o Senhor te guarde com tua irmã, a santa e pura Simplicidade.
Senhora santa Pobreza, o Senhor te guarde com tua irmã, a santa Humildade.
Senhora santa Caridade, o Senhor te guarde com tua irmã, a santa Obediência.
Vós todas, santíssimas Virtudes, guarde-vos o Senhor, de quem todas vós procedeis e vindes.
Não há no mundo homem algum que possa possuir uma de vós intimamente, sem que ele morra primeiro.
Quem possui uma, não ofende as outras, e a todas possui.
Quem a uma ofende, a todas ofende e não possui nenhuma.
Cada uma por si destrói vícios e pecados.
A santa Sabedoria confunde a Satanás e todas as suas astúcias.
A pura e santa Simplicidade confunde toda sabedoria deste mundo e toda prudência segundo a carne.
A santa Pobreza confunde toda cupidez e avareza e todos os cuidados deste século.
A santa Humildade confunde o orgulho e todos os homens deste mundo e tudo o que está no mundo.
A santa Caridade confunde todas as tentações do demónio e da carne e todos os temores carnais.
A santa Obediência confunde todas as vontades próprias e os amores carnais.
É ela que mantém o corpo mortificado para obedecer ao Espírito, para obedecer a seu irmão.
É ela que torna o homem submisso a todos os homens deste mundo.
E não somente aos homens, como também aos animais e às feras.
Para que dele possas dispor como queiram, até onde, do céu, lhes permita o Senhor.
Vós todas Santas Virtudes, que pela graça e iluminação do Santo.
Espírito, sois derramadas nos corações dos fiéis e dos infiéis, fazei-nos fiéis a Deus! Amem!

Ó meu Deus, vem em meu auxílio ( São Francisco de Assis)

Meu Deus, de minha vida as dores todas confiei-Te,
Tu sabes o quanto chorei.
Meus inimigos se esforçam por perder-me,
contra mim, eles reúnem seu conselho.
As minhas dádivas, só com o mal respondem, resposta ao meu amor é só ódio.
Estou disposto à indiferença e à zombaria, mas permaneço fiel à oração.
Pai santo, rei do céu e da terra, não Te afastes de mim:
não vem ninguém em meu socorro!
Mas quando eu Te invocar, recuará o maligno:
eu o proclamo, Tu és meu Deus.
De minha casa se afastam meus inimigos, com desprezo,
De minha porta fogem os que me são mais próximos.
Desviam-se de mim os meus amigos,
sem poder justificar-me, sou traído.
Pai santo, não me recuses Teu socorro,
vem meu Deus, em meu auxílio!
Socorre-me, sem demora, Senhor Deus, meu Salvador!
Amem!

 

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