Avisos e Cautelas de S. João da Cruz

Diz o Santo São João da Cruz  as Carmelitas descalças de Beas. ”Que precisa trazer sempre diante de si aquele que quiser ser verdadeiro religioso e em breve chegar à perfeição”.S. João da Cruz, nos ensina a verdadeira espiritualidade, e a intimidade com Deus,para  alcançar à perfeição; procurando o exercício de virtudes; mortificações, solidão corporal e espiritual; resignação.

Avisos do Santo, guardados pela Madre Madalena do Espírito Santo:

”Ao que trabalha por Deus com amor puro não somente não se lhe dá que os homens o saibam, mas nem o faz para que o saiba o próprio Deus; e mesmo que Deus nunca o chegasse a saber, não cessaria de fazer os mesmos serviços e com a mesma alegria e amor”.

”Outro aviso para vencer os apetites: trazer ordinariamente o desejo de imitar a Jesus Cristo em todas as obras, conformando-se com a Sua vida, a qual deve considerar para saber imitá-la e haver-se em todas as coisas como Ele se haveria”.

”Para poder fazer isto é necessário renunciar a qualquer apetite ou gosto que não seja puramente para honra e glória de Deus, e ficar sem nada por amor d’Aquele que não teve nem quis ter durante a vida senão a vontade de Seu Pai à qual chamava Sua comida e manjar”.

”Para mortificar as quatro paixões naturais que são: gozo, tristeza, temor e esperança, aproveita o seguinte:
-Inclinar-se sempre não ao mais fácil, mas ao mais difícil;
-Não ao mais saboroso, mas ao mais insípido;
-Não ao mais gostoso, mas ao que não dá gosto;
-Não se inclinar ao que é descanso, mas ao mais trabalhoso;
-não ao que é consolo, mas ao que não é consolo;
-Não ao mais, mas ao menos;
-Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezado;
-Não ao que é querer algo, mas ao que é não querer nada;
-Não andar procurando das coisas o melhor, mas o pior; e por Jesus Cristo ter, para com todas as coisas do mundo. desnudez, vazio e pobreza.

”Para a concupiscência: procurar operar em desnudez e desejar que que os outros o façam”.
”Procurar falar com desprezo próprio e desejar que todos o façam”.O Venerável Padre entre várias coisas que escrevia, de uma vez escreveu um pensamento para proveito espiritual de cada uma das religiosas, e bem que os tenha copiado a todos, somente me deixaram os seguintes:
-”Tenha fortaleza de coração contra todas as coisas que a moverem ao que não é de Deus, e seja amiga de padecer por Cristo”.
-”Prontidão na obediência, gozo no padecer, mortificar a vista, de nada querer saber, silêncio e esperança”.
-”Refreie muito a língua e o pensamento e traga o afecto constantemente em Deus e o espírito aquecer-se-lhe-à divinamente. Leia isto muitas vezes. (S. João da Cruz, Obras completas).

Outros avisos:sao_joao_cruz
-”Quanto mais te apartas das coisas terrenas, tanto mais te acercas das celestiais e mais achas em Deus”.
-”Quem souber morrer a tudo terá vida em tudo”.
-”Aparta-te do mal, opera o bem e busca a paz”.
-”Quem se queixa e murmura não é perfeito, nem mesmo bom cristão”.
-”é humilde quem se esconde no seu nada e sabe abandonar-se a Deus”.
-”É manso quem sabe suportar o próximo e sofrer-se a si mesmo”.
-”Se queres ser perfeito vende a tua vontade e dá-se aos pobres de espírito e vem a Cristo por mansidão e humildade e segue-O ao Calvário e ao sepulcro”.
-”Quem de si mesmo se fia-é pior que o demónio”.
-”Quem não ama o próximo a Deus aborrece”.
-”Quem opera com tibieza, está próximo da queda”.
-”Quem foge da oração foge de todo o bem”.
-”É melhor vencer-se na língua que jejuar a pão e água”.
-”É melhor sofrer por Deus que fazer milagres”.
-”Ó que bens gozaremos com a vista da SS.ª Trindade!”(L.D.V.M.).

CAUTELAS DE PERFEIÇÃO:

”- O religioso que quiser chegar dentro de pouco tempo, ao santo recolhimento, silêncio, desnudez espiritual e pobreza de espírito em que se goza o pacífico refrigero do Espírito Santo e chegar a alma a unir-se com Deus e se libertar dos impedimentos das criaturas deste mundo, se defende das astúcias e engodo do demónio e se desenlameia de si mesma, precisa de se exercitar nos pontos que vão seguir”.

-”Com cuidado habitual e sem outro trabalho nem outra maneira de exercício, não faltando de si o que o obriga o seu estado, chegará muito depressa a uma grande perfeição, adquirindo todas as virtudes em conjunto e chegando à santa paz”.

-”Para isto é de advertir primeiramente que os danos recebidos pela alma, nascem dos já citados inimigos: mundo, demónio e carne. O mundo é o inimigo menos dificultoso. O demónio é o mais obscuro de entender. A carne é o mais tenaz de todos e as suas acometidas duram, enquanto durar o homem velho”.

-”Para vencer qualquer destes três inimigos é mister vencê-los todos três, e, enfraquecendo um, se enfraquecem os outros dois, e vencidos estes três, a alma deixa de estar em guerra”.

Contra o mundo:
Para te libertares perfeitamente do dano que o mundo te pode causar, hás-de usar de três cautelas:

A primeira é que a respeito de todas as pessoas tenha igual amor e igual esquecimento, quer sejam parentes ou não, desprendendo o coração tanto de uns como de outros e até, de certo modo, mais dos parentes , por temor que a carne e sangue se avivem com o amor natural sempre vivo entre os parentes e que convém mortificar sempre, para atingir a perfeição espiritual. Tem a todos eles como a estranhos e desta maneira cumprirás melhor com eles, que pondo neles o afecto que a Deus deves. Não ames a uma pessoa mais que a outra porque errarás, pois é digna de maior amor aquela que Deus mais ama e tu não sabes a quem Deus tem mais amor. Esquecendo-os porém igualmente a todos, como te convém para o santo recolhimento, livrar-te-às do erro do mais ou do menos com eles.
Nada penses a seu respeito, nem em bem nem mal e foge-lhes tanto quanto de boamente puderes. E, se isto não cumprires, não saberás ser religioso, nem poderás chegar ao santo recolhimento, nem libertar-te das imperfeições que isto traz consigo, e se neste ponto te quiseres permitir alguma liberdade com um ou com outro, te enganará o demónio, ou tu a ti mesmo, com alguma aparência de bem ou de mal. Mas, fazendo conforme fica dito, terás segurança, pois de outro modo não poderás libertar-te das imperfeições e danos que à alma causam as criaturas.

A segunda cautela contra o mundo diz respeito aos bens temporais e para te libertares de vez, dos danos desta espécie e temperares a demasia do apetite, é mister aborreceres toda a forma de possuir, e não teres cuidado algum a este respeito nem da comida, nem do vestido ou outras coisas criadas, nem quanto ao dia de amanhã, pondo o teu cuidado em outra coisa mais alta que é buscar o reino de Deus, isto é, em não faltar a Deus, porque o demais, como Sua Majestade disse, nos será dado por acréscimo, pois não se há-de esquecer de ti Aquele que cuida dos animais. Com isto adquirirás silêncio e paz nos sentidos.

A terceira cautela é muito necessária para te saberes guardar no convento de todos os danos a respeito dos religiosos, pois por muitos a não terem tido, não somente perderam a paz e bem de sua alma, mas vieram e vêm ordinariamente a cair em muitos males e pecados. É ela que te guardes com todo o cuidado de pôr o pensamento e ainda menos a boca no que se passa na Comunidade; que é ou foi de qualquer religioso em particular: da sua condição, do seu trato, das suas coisas por mais graves que sejam; e nem sob a aparência de zelo nem de remédio a dar, digas alguma coisa, a não ser a quem de direito convém dizê-lo a seu tempo; não te escandalizes jamais, nem te maravilhes com coisas que vejas ou percebas procurando guardar a tua alma no esquecimento de tudo isso.

Porque, se quiseres olhar para alguma coisa ainda que vivas entre anjos, muitas coisas não te parecerão bem, por não compreenderes a substância delas. Sirva-te de exemplo a mulher de Lot que, se ter perturbado com a perdição dos Sodomitas e ter voltado a cabeça a ver o que se passava, a castigou o Senhor transformando-a em estátua de sal. Para que entendas que Deus, mesmo que vivas entre demónios, quer que vivas de tal maneira entre eles, que não voltes a cabeça do pensamento às suas coisas mas que as deixes totalmente procurando trazer a alma pura e inteira em Deus, sem que qualquer pensamento, a respeito disto ou daquilo, te possa estorvar. e para isto tem como averiguado que nos conventos e comunidades nunca há-de faltar algo em que tropeçar, pois nunca faltam demónios que procuram derrubar os santos; e Deus assim o permite para os exercitar e provar.
E se tu te não guardares como ficou dito procedendo como se não estivesses em casa, não poderás ser religioso, por mais que faças, nem chegarás à santa desnudez e recolhimento, nem te libertarás dos danos que nisto há. Porque não fazendo assim por melhor intenção e zelo que tenhas, numa ou noutra coisa te colherá o demónio e bastante colhido já estás, quando dás lugar a que a tua alma se  distraia em qualquer dessas coisas. Recorda-te do que disse o Apóstolo S. Tiago: ”Se alguém julga que é religioso não refreando a língua, é vãs a sua religião”.(Tiago 1,26). E isto entende-se não menos da língua interior que da exterior.

Contra o Demónio

-Destas três cautelas deve usar quem aspira à perfeição, para se livrar do demónio, seu segundo inimigo. Para isso é de advertir, que entre os muitos meios usados pelo demónio para enganar os espirituais, o mais comum é enganá-los com aparência de bem e não com as aparências de mal; pois sabe que, conhecido o mal, dificilmente o tomariam. E assim hás-de acautelar-te sempre do que te parece bem, normalmente não intervindo a obediência: a segurança e o acerto nestas coisas está no conselho daquele que o deve dar.

-Primeira cautela

Seja pois a primeira cautela, que jamais a não ser para aquilo a que por ordem estás obrigado, te movas a coisa nenhuma por boa e cheia de caridade que te pareça, ou seja para ti ou para qualquer pessoa de dentro ou de fora de casa, sem ordem da obediência. Nisto ganharás mérito e segurança. Livra-te de propriedade e fugirás do demónio e danos que não calculas e de que Deus, a seu tempo te pedirá contas. E se esta cautela não guardas, tanto no pouco, como no muito, por mais que te pareça acertar, não deixarás de ser enganado, em pouco ou em muito pelo demónio.
E ainda que não fosse mais do que não te regeres em tudo pela obediência, já errarias culposa-mente, pois Deus mais quer a obediência que os sacrifícios; as acções do religioso não são dele mas da obediência e se dela as apartares, delas te pedirão contas como se fossem perdidas.

Segunda Cautela

A segunda cautela seja, que não consideres nunca o Prelado menos que Deus, seja ele quem for, pois o tens em seu lugar. E adverte que o demónio, inimigo da humildade, mete aqui muito a mão. E olhando para o Prelado como se disse, é muito ganho e o  aproveitamento e, não sendo assim, grande a perda e o dano. E portanto, vela com grande vigilância para não olhares à sua índole, nem modo nem processos, nem a outras maneiras suas de proceder, porque com isso te farás tanto dano que virás a mudar a obediência de divina em humana, movendo-te ou não, apenas pelos modos visíveis que vires no Prelado e não por Deus invisível a quem nele serves. E a tua obediência será vã ou tanto mais frutuosa, quanto mais te agravares com a índole adversa do teu Prelado ou com a sua boa e agradável índole te alegrares. Porque, digo-te, por ter o demónio feito com que considerassem as coisas por esta forma, pondo os olhos nestas coisas acerca da obediência, arruinou na perfeição a muitíssimos religiosos, e suas obediências são de muito pouco valor aos olhos de Deus. Se nisto te não esforçares, de modo que chegues a que tanto se dê que seja Prelado este ou aquele, pelo que toca ao teu sentimento particular, não poderás de forma alguma ser espiritual nem guardar bem os teus votos.

TERCEIRA CAUTELA

A terceira cautela directamente contra o demónio, é que o íntimo do coração procures sempre humilhar-te em palavras e obras regozijando-te do bem dos outros, como se fosse teu e querendo que sejam preferidos a ti em todas as coisas. Por esta forma vencerás com o bem o mal, expulsarás o demónio para longe e andarás com alegria no coração; e procura exercitar mais isto com os que te caírem em graça. E fica sabendo que se assim o não exercitares, não chegarás à verdadeira caridade, nem nela aproveitarás. E sê sempre mais amigo de ser por todos ensinado que de querer ensinar ao mínimo de todos.

 

CONTRA A CARNE

De três cautelas hás-de usar aquele que quiser vencer-se a si mesmo e à sua sensualidade, seu terceiro inimigo.

 

PRIMEIRA CAUTELA

A primeira cautela é que compreendas que não vieste para um convento senão para seres lavrado e exercitado; e que por isso, para te livrares das imperfeições; e perturbações que as condições e tratos dos religiosos te podem oferecer, e de todos os acontecimentos tirar proveito, convém pensar que todos os que estão no convento, são agentes encarregados de te exercitar, como em verdade o são; que uns te hão-de lavrar por palavras, outros por obras, outros por pensamentos contra ti, e que a tudo hás-de estar sujeito como a estátua o está ao que a lavras, pinta e doira.  E se isto não guardas, não saberás vencer a tua sensualidade e sentimentos, nem saberás haver-te bem no convento com religiosos, nem alcançarás a santa paz, nem te livrarás de muitos tropeço e males.

 

SEGUNDA CAUTELA

–A segunda cautela é que jamais deixes de fazer as obras por falta de gosto ou de sabor que nelas achares, se convier ao serviço do Senhor que se façam; nem as faças somente pelo sabor e gosto que te derem, mas porque convém fazê-las tanto como as desagradáveis; porque sem isto é impossível ganhares constância e venceres a tua fraqueza.

TERCEIRA CAUTELA

—A terceira cautela seja que nunca o homem espiritual ponha os olhos no saboroso dos exercícios para a eles se agarrar e somente por isso faça tais exercícios; nem fuja do amargo deles, mas antes procure o trabalhoso e o desagradável. Com isto põe-se freio à sensualidade, pois de outra maneira não perderás o amor próprio, nem ganharás e alcançarás o amor de Deus.

 

PONTOS DE AMOR
1- Refreie muito a língua e o pensamento e traga de ordinário o afecto em Deus; assim o espírito se lhe aquecerá divinamente.

2- Não apascente o espírito senão em Deus. Despreze as advertências das coisas e traga a paz e o recolhimento no coração.

3- Tenha sossego espiritual em amorosa atenção a Deus, e quando for necessário falar, seja com o mesmo sossego e paz.

4- Tenha habitual memória da vida eterna e que serão os mais abatidos e pobres e que em menos conta se têm, que gozam de mais alto senhorio e glória em Deus.

5- Alegre-se sempre em Deus que é a sua saúde, e olhe que é bom sofrer de qualquer maneira por Aquele que é bom.

6- Considerem como é mister serem inimigas de si mesmas e caminhar para a perfeição pelo santo rigor e entendam que cada palavra dita sem ordem da obediência é por Deus posta em conta.

7- Íntimo desejo de que Deus lhe dê aquilo que Sua Majestade sabe que lhe falta para honra Sua.

8- Crucificada interior e exteriormente com Cristo, viverá durante esta vida com fartura e satisfação da sua alma, possuindo-a na paciência.

9- Ponha a atenção amorosamente em Deus, sem apetite de querer sentir ou entender coisa particular a respeito d´Ele.

10- Habitual confiança em Deus estimando em si e nas Irmãs aquilo que Deus mais estima que são os bens espirituais.

11- Entre dentro de si e trabalha na presença do Esposo que está sempre presente querendo-lhe bem.

12- Seja inimiga de admitir na alma coisas que em si não tenham substância espiritual, para que lhe não façam perder o gosto à devoção nem ao recolhimento.

13- Que Cristo crucificado lhe baste e com Ele sofra e descanse, mas para isso há que aniquilar-se em todas as coisas, exteriores e interiores.

14- Procure sempre que as coisas sejam nada para si e nada seja para as coisas, mas olvidada de tudo more no seu recolhimento com o Esposo.

15- Ame muito o sacrifício e tenha-o por pouco para cair em graça do Esposo que por si não hesitou em morrer.

16- Tenha fortaleza de coração contra tudo que a mover ao que não é Deus e seja amiga da Paixão de Cristo.

17- Traga interior desapego de todas as coisas e não ponha o gosto em qualquer temporalidade; assim guardará a sua alma recolhida pra os bens que não conhece.

18- A alma que caminha no amor nem cansa nem se cansa.

19- Ao pobre que está nu se vestirá; à alma que se despe dos seus apetites, quereres e não quereres a vestirá Deus com a Sua pureza, gosto e vontade.

20-  Há almas que se revolvem no lodo tal como os animais, e outras voam como as aves que no ar se purificam e limpam.

21- O pai, disse uma palavra, que foi Seu Filho, e di-la sempre no eterno silêncio ela há-de ser ouvida pela alma.

22- Temos de medir os trabalhos por nós e não nos medirmos pelos trabalhos.

23-Quem não procura a cruz de Cristo não procura a glória de Cristo.

24- Para se enamorar duma alma não põe Deus os olhos na grandeza dela, mas na grandeza da sua humildade.

25- Aquele que tiver vergonha de Me confessar diante dos homens também Eu me envergonharei de o confessar diante de Meu Pai, diz o Senhor.

26- O cabelo que se penteia a miúdo estará liso e não haverá dificuldade em o pentear quantas vezes se quiser; e a alma que a miúdo examina os seus pensamentos, palavras e acções, que são os seus cabelos, e faz todas as coisas por amor de Deus, terá o cabelo muito alisado, e o Esposo contemplando o seu colo ficará preso nele e ferido num dos seus olhos que é a pureza de intenção com que opera todas as coisas.

Principia-se a pentear o cabelo no alto da cabeça se o queremos desembaraçar; todas as nossas obras hão-de ser começadas no mais alto do amor de Deus, se queremos que sejam puras e claras.

27- O céu é firme e não está sujeito a geração e as almas que são de narureza celestial, são firmes e não estão sujeitas a gerar apetites nem outra qualquer coisa, porque à sua maneira parecem-se com Deus; não se movem para sempre.

28- Não comer em pastos vedados que são os desta vida presente, porque bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados. O que Deus pretende é fazer-nos deuses por participação, sendo-o Ele por natureza, é como o fogo que converte tudo em fogo.

29- Toda a bondade que temos é emprestada, Deus a tem por obra própria; Deus e a sua obra é Deus.

30- A Sabedoria entra pelo amor, pelo silêncio e mortificação; grande sabedoria é saber calar e não olhar aos ditos nem feitos nem vidas alheias.

31- Tudo para mim e nada para Ti.

32- Tudo para Ti e nada para MIM.

33- Deixa-te ensinar, deixa-te mandar, deixa-te sujeitar e desprezar e serás perfeita.

34- Qualquer apetite causa na alma cinco danos: o primeiro é que a inquieta; o segundo que a perturba; o terceiro que suja; o quarto que a enfraquece; o quinto que a obscurece.

35- A perfeição não está nas virtudes que a alma conhece de si, mas consiste nas que o Nosso Senhor vê na alma, e é como carga cerrada, não tem pois a alma de que se orgulhar, mas antes estar prostrada por terra a respeito de si mesma.

36- O amor não consiste em sentir grandes coisas mas em ter uma grande desnudez e em padecer pelo Amado.

37- O mundo inteiro não é digno de um só pensamento do homem, porque a Deus somente é devido; qualquer pensamento que se não tenha em Deus, é, portanto, um roubo que se Lhe faz.

38– Não se devem empregar totalmente as potências e os sentido nas coisas, mas unicamente o que se não pode escusar, e o resto deve-se deixar desocupado para Deus.

39– Não reparar nas imperfeições alheias, guardar silêncio e tratar continuamente com Deus desgarrara grandes imperfeições da alma, tornando-a senhora de grandes virtudes.

40– Os sinais do recolhimento interior são três: o primeiro, se a alma não gosta das coisas transitórias;–o segundo, se gosta da solidão e do silêncio e se é levada a tudo quanto é mais perfeito;–o terceiro se as coisas que costumava ajudá-la, como são, as considerações, meditações e actos, a estorvam, não tendo a alma outro arrimo na oração senão a fé, a esperança e a caridade.

41– Se uma alma for mais paciente no sofrer e no tolerar melhor o carecer de gostos é sinal que tem aproveitado na virtude.

42– As condições do pássaro solitário são cinco:– a primeira voar em direcção ao mais alto;– a segunda não sofrer companhia alguma nem mesmo da sua natureza;– a terceira voltar o bico para o ar;– a quarta não ter cor determinada;– a quinta cantar suavemente. Estas mesmas qualidades há-de ter a alma contemplativa, pois, há-de subir sobre as coisas transitórias, fazendo delas tanto caso como se não existissem, e sendo tão amiga da solidão e do silêncio que não sofra a companhia de outra criatura. Há-de pôr o bico ao ar do Espírito Santo correspondendo às suas inspirações, para que procedendo assim, se torne mais digna da sua companhia. Não há-de ter cor determinada, pois não terá determinação em coisa alguma, senão no que for da vontade de Deus; e há-de cantar suavemente na contemplação e no amor do seu Esposo.

43– Os hábito de imperfeições voluntárias que se não chegam a vencer, como seja o costume de falar muito, um pequeno apego não vencido a qualquer pessoa, vestido, cela ou livro, tal espécie de comida outras coisas, em saber, em ouvir e outras semelhantes, não somente impedem a união divina, mas ainda o chegar à perfeição.

44— Se te queres gloriar e não queres parecer nécio e louco, aparta de ti o que não é teu, e , do que te ficar, terás glória, mas, se apartares tudo quanto não é teu, nada te ficará, de nada portanto te podes gloriar se não queres cair em vaidade. Mas desçamos agora especialmente aos dons daquelas graças que tornam os homens graciosos e agradáveis aos olhos de Deus; e o certo é que destes dons te não deves gloriar pois não sabes se os tens.

45–Ó quão doce será para mim a Tua presença, Tu que és o sumo Bem; chegar-me-ei a Ti em silêncio e descobrir-Te-ei os pés afim de que tenhas por bem juntar-me contigo em matrimónio, e não descansarei até que em Teus braços goze; e agora rogo-Te, Senhor, que me não deixes no meu recolhimento em tempo algum, pois sou desperdiçadora da minha alma.

46– Desapegada do exterior, desapossada do interior, desapropriada das coisas de deus, a prosperidade não a detém nem a adversidade a impede.

47–O demónio teme a alma unida a Deus como ao mesmo Deus.
48–O padecer mais puro, traz e acarreta mais puro entender.
49– A alma que deseja que Deus totalmente se lhe entregue, há-de-se entregar toda, sem nada reservar para si.
50– A alma que está na união do amor nem os primeiros movimentos tem.
51– Os amigos velhos de Deus só excepcionalmente podem faltar a Deus, pois estão já acima de tudo quanto os pode fazer faltar.
52– Eu quero para mim todo o áspero e trabalhoso, e para Ti, Amado meu, tudo quanto é suave e saboroso.
53– A maior necessidade que temos para progredir é calar o apetite e a língua diante deste grande Deus, pois, a linguagem que Ele mais ouve é o amor silencioso.
54– Caminhar na escuridão para procurar a Deus. A luz serve no exterior, para não cair, nas coisas de Deus é o contrário; de maneira que é melhor não ver; a alma tem assim mais segurança.
55– Grangeia-se mais nos bens de Deus em uma hora, que nos nossos toda a vida.

56– Ama não seres conhecida nem de ti nem dos outros. Nunca olhes para os bens nem males alheios.
57– Andar a sós com Deus, trabalhar entretanto, esconder os bens de Deus.
58– Andar a perder e querer que todos nos ganhem é de ânimo valorosos, de peitos generosos, de corações dadivosos; é condição deles antes dar que receber até chegarem a dar-se a si mesmos; porque têm por grande peso possuir-se, preferem ser possuídos e alhear-se de si mesmos, pois somos mais pertença daquele bem infinito do que nossa.

59– Grande mal é olhar mais aos bens de Deus que ao próprio Deus; oração e desapego.
60– Veja aquele saber infinito e aquele segredo escondido! Que paz, que amor, que silêncio não está naquele peito divino, que ciência tão elevada a que Deus ali ensina; é o que chamamos actos analógicos que tanto incendeiam o coração!
61– O segredo da consciência muito perde e diminui todas as vezes que alguém manifesta aos homens os seus frutos, pois que recebe então por galardão o fruto da fama transitória.
I- Fale pouco e nas coisas que não lhe perguntarem não se meta.
II- Procure trazer sempre Deus presente e, em si, conservar a pureza que lhe ensina.
III-Não se desculpe nem se recuse a ser por todos corrigido, oiça de rosto sereno toda a repreensão, pense que é Deus quem lha diz.
IV- Viva neste mundo como se só com Deus vivesse a fim de que o seu coração não seja detido por coisa humana.
V- Tenha como uma misericórdia de Deus o dizerem-lhe por vezes alguma palavra boa, pois não merece nenhuma.
VI- Nunca oiça as fraquezas alheias e se alguém se lhe queixar de outrem, poderá pedir humildemente que nada lhe diga.
VII- Não se queixe de ninguém, não pergunte coisa alguma e, se for necessário perguntar, faça-o em poucas palavras.
VIII- Não deixe dissipar o coração nem que seja pelo espaço de um Credo.
IX- Não recuse o trabalho, nem mesmo que julgue não o poder fazer; que todos achem piedade em si.
X- Não contradiga; e por forma alguma diga palavras que não sejam próprias.
XI- Fale de maneira que ninguém se ofenda e que seja em coisas que não lhe pense que todos venham a saber.
XII- Cale o que Deus lhe der, recorde-se do dito da esposa: “O meu segredo é para mim”.
XIII-Não recuse coisa alguma que tenha, mesmo que dela precise.
XIV- Procure conservar o coração em paz, que nenhum sucesso o desassossegue, olhe que tudo há-de acabar.
XV- Não repare muito nem pouco para quem é contra ou a favor de si, e procure sempre agradar ao seu Deus. Peça-Lhe que em si se faça a Sua Vontade. Ame-O muito pois que isso Lhe é devido.

62- Doze estrelas para chegar à suma perfeição:- amor de Deus, amor do Próximo, obediência, castidade, pobreza, assistência ao coro, penitência, humildade, mortificação, oração, silêncio, paz.
63- Nunca tomes um homem por exemplo no que tiveres a fazer, por santo que seja, porque o demónio porá diante de ti as suas imperfeições, mas imita a Cristo que é sumamente perfeito e sumamente santo e nunca cairás em erro.
64- Procurai lendo e encontrareis meditando; chamai orando e abrir-vos-ao contemplando.
65- Perguntando alguém um dia ao venerável Santo Padre Frei João da Cruz como era que uma pessoa se arrebatava, respondeu:- negando a sua vontade e fazendo a de Deus, porque o êxtase não é senão sair a alma de si mesma e arrebatar-se em Deus, e isto faz o que obedece porque é sair de si e do seu próprio querer e assim aliviado absorve-se em Deus.

 

 

 

 

 

 

 

Advertisements