A Humildade

quadro-jesus-lavando-pes-santa-ceia-natal-lava-pes-D_NQ_NP_980011-MLB20470366698_112015-FNo Catecismo da Igreja Católica, a humildade está descrita no nº 2546 como “pobreza de espírito”: O Verbo chama “pobreza em espírito” à humildade voluntária do espírito humano e à sua renúncia; e o Apóstolo dá-nos como exemplo a pobreza de Deus, quando diz: “Ele fez-Se pobre por nós (2 Cor 8, 9)”.  A palavra humildade, significa o reconhecimento dos próprios erros ou defeitos; modéstia.

O humilde é simples submisso ,pobre e modesto.
Com relação a humildade na oração, o Catecismo no nº2559, 2631, diz:- A humildade é o fundamento da oração. “Não sabemos o que havemos de pedir para rezarmos como deve ser” (Rm. 8,26). A humildade é a disposição necessária para receber gratuitamente o dom da oração: o homem é um mendigo de Deus.
O acto humilde de pedido de perdão é o primeiro movimento da oração de petição(cf. o publicano: ” Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador” (Lc. 18,13). É o preliminar duma oração justa e pura. A humildade confiante repõe-nos na luz da comunhão com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo, bem como dos homens uns com os outros. Nestas condições, “seja o que for que Lhe peçamos, recebê-lo-emos” (1 Jo. 3,22). O pedido de perdão é o preâmbulo da liturgia Eucarística, bem como da oração pessoal.
A humildade necessária para a oração no nº 2713, diz:- Assim a contemplação é a expressão mais simples do mistério da oração. É um dom, uma graça; só pode ser acolhida na humildade e na pobreza. É uma relação de aliança estabelecida por Deus no fundo do nosso ser. A contemplação é comunhão: nela, a Santíssima Trindade conforma o homem, imagem de Deus, “à sua semelhança”.

Em (Mt 11,25-30) Jesus faz-nos uma grande revelação sobre a humildade, que só os humildes serão capazes de entender suas mensagens. (Lc 10, 21-22) – Naquela ocasião, Jesus tomou a palavra e disse: “Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escolheste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”
O jugo do Senhor- “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

A Beata Teresa de Calcutá, fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade, ensina-nos no seu comentário sobre a humildade, diz: “Para nos tornarmos santos, precisamos de humildade e oração. Jesus ensinou-nos a rezar e também nos disse para aprendermos, seguindo o Seu exemplo, a ser mansos e humildes de coração. Só alcançaremos uma e outra coisa se soubermos o que é o silêncio. Tanto a humildade como a oração provêm de um ouvido, de uma inteligência e de uma língua que provaram o silêncio junto de Deus, pois Deus fala no silêncio do coração. Esforce-mo-nos verdadeiramente por aprender a lição de santidade de Jesus, cujo coração era manso e humilde. A primeira lição dada por este coração é a de examinarmos a nossa consciência, sendo que o resto – amar, servir – surge logo a seguir. Este exame não é exclusivamente da nossa competência, mas revela de uma colaboração entre nós e Jesus. Não vale a pena perder tempo a contemplar inutilmente as nossas misérias; trata-se, isso sim, de elevar o coração a Deus e deixar que a Sua luz nos ilumine.
Se fores humilde, nada te afectará, nem a lisonja, nem a desgraça, pois saberá o que és. Se te repreenderem, não te sentirás desencorajado; e se alguém te disser que és santo, não te colocarás num pedestal. Se fores santo, agradece a Deus; se fores pecador, não te fiques por aí. Cristo diz-te para aspirares muito alto: não para seres como Abraão ou David, ou como qualquer outro santo, mas como o nosso Pai celeste (Mt 5, 48). Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi (Jo 15, 16).

A humildade, segundo a opinião unânime dos Santos Padres, é o fundamento da perfeição cristã. Santo Agostinho diz: “Para se chegar a ser grande há que começar por se fazer pequeno”. A Sagrada Escritura, nos ensina continuamente como Deus resiste aos orgulhosos e humilha os que se exaltam; e como nos devemos fazer semelhantes às criancinhas para entrar no Reino de Deus.
Nunca será o suficiente a pratica e o esforço por praticar a humildade para expulsar de nossa alma todo o orgulho, vaidade e a presunção, esta perseverança tem que ser continua, pois é obrigação de todo o baptizado seguir os passos de Jesus Cristo, que é o modelo do caminho de nossa vida.
Todos os santos fugiram dos louvores e as honras, e com grande desprezo preferiam as humilhações e os opróbrios. São Bernardo nos adverte, “que orgulho haverá, tão obstinado, que não possa ser abatido pela humildade deste divino Mestre?”

No capítulo II do livro Imitação de Cristo, aborda e ensina de maneira simples mas clara a humildade, diz: – Não te preocupe em saber se os homens são a teu favor ou contra ti; mas seja o teu principal cuidado pedir a Deus que te ajude em tudo o que fizeres.
Conserva pura a tua consciência e Deus te defenderá.
Quando Deus a alguém quer ajudar, de nada vale a maldade dos homens. Se sabes calar e sofrer, terás o socorro do Senhor. Ele sabe a ocasião e o modo de te aliviar; oferece-te, portanto, a Ele, inteiramente.
A Deus pertence ajudar-te e livrar-te de toda a confusão.
Muitas vezes é de grande proveito para nosso espírito, a fim de que se faça mais humilde, que outros saibam e repreendam os nossos defeitos.
Quando o homem se humilha pelas suas faltas, abranda facilmente os que o criticam e desarma aqueles que contra ele estão irados.
Deus protege e livra o humilde, ama-o, consola-o, inclina-Se sobre ele; dá-lhe abundantes graças e, depois de o ter na humilhação, eleva-o à glória; revela-lhe os seus segredos e atrai-o docemente a Si.
O humilde, recebendo afrontas, conserva-se em paz, porque tem a sua confiança em Deus e não no mundo.
Não cuides teres feito progresso espiritual se não te considerares inferior a todos.

Lições do Papa Leão XIII.

Se falham as consolações temporais e Deus te tira as espirituais, pensa que sempre tiveste mais do que as que merecias. Contenta-te com aquilo que o Senhor te dá.

Mostra sempre um grande respeito e reverência pelos teus superiores, uma grande estima e cortesia para com os teus iguais e uma grande caridade para com aqueles que estão abaixo de ti. Convence-te de que agir de outro modo só pode ser efeito de um espírito que está dominado pela soberba.

Evita como um mal gravíssimo julgar a conduta do próximo. Pelo contrário, interpreta com benignidade as suas palavras e obras, procurando com industrioso caridade razões com que os desculpar e os defender. E se for impossível a defesa – por ser muito evidente a falta cometida -, procura atenuá-la o mais possível atribuindo-a, segundo as circunstâncias, a inadvertência, a surpresa, ou a alguma coisa semelhante. Pelo menos, não penses mais nisso, a não ser que o teu cargo te exija dar-lhe remédio.

Cultiva sempre dentro de ti o santo costume de te acusares, repreenderes e condenares. Sê Juiz severo de todas as tuas acções, que vão sempre acompanhadas de mil defeitos e das constantes pretensões do amor-próprio. Sente amiúde um justo desprezo de ti ao ver-te no teu comportamento tão falho de prudência, de simplicidade e de pureza de coração.

Se te fizerem uma injúria ou te provocarem algum desgosto grave, em vez de te indignares com quem te ofendeu, ergue os olhos ao céu e olha para o Senhor, que – com a Sua infinita e amável providência – o permitiu, para que expieis os teus pecados ou para destruir em ti o espírito de soberba, obrigando-te a fazer actos de paciência e de humildade.

Se fizeres alguma mortificação extraordinária, procura preservar-te do veneno da vanglória, que tantas vezes destrói todo o seu mérito. Fá-la apenas por que ela vai contra um pecador que, de outro modo, viveria segundo o seu capricho. Fá-lo também por tantas dívidas que tens de saldar frente à justiça divina. Considera que os actos de penitência te são tão necessários para deter a violência das tuas paixões e para te manteres dentro dos limites do dever, como  abrida e o freio para domar um cavalo impetuoso.

Quando te louvarem, em vez de te encheres de vanglória, considera se esses louvores não serão a recompensa do pouco bem que fizeste. Evoca interiormente a tua miséria merecedora do desprezo dos demais, e procura cortar a conversa, não para colher mais louvores – como os soberbos, que fingem ser humildes -, mas com um tacto e descrição que não permitam que se voltem a lembrar de ti. E, se não o consegues, remete a Deus toda a honra e toda a glória, dizendo, com Baruc e Daniel: “A Ti, Senhor, toda a honra e glória, e a nós, a vergonha e o opróbrio”.

Quando se te apresentar a ocasião de prestar ao próximo algum serviço baixo e abjecto, fá-lo com alegria e com a humildade com que o farias se fosses o servo de todos. Desta prática tirarás grandes tesouros de virtude e de graça.

 

Para conseguir desenvolvimento espiritual Santo Agostinho rogava a Deus assim:
“Senhor Jesus, concede-me a graça de conhecer-me e conhecer-vos a Vós, para humilhar-me e exaltar-Vos e receber como sendo de Vós tudo que me acontecer.
Prosseguir-me e sentir-Vos, desejando somente acompanhar-vos. Fugir e refugiar-me em Vós para obter a Vossa protecção, para temer por mim próprio e respeitar-Vos, para ser do número dos Vossos escolhidos, desconfiar e confiar em Vós, querer obedecer por Vós, ser traído por Vós, ser pobre por Vós. Senhor, um Vosso olhar me abrasará de amor. Chamai-me para que o veja e goze por toda a eternidade. Assim seja.

S. Teresa Benedita da Cruz (1891- 1942) Edith Stein, Cartas 24-12-1917.
Permanecer firme na Impotência

Este sentimento de absoluta impotência é algo a que dificilmente me posso habituar…
cada pessoa deve estar muito firme na sua impotência, para se curar da ilimitada confiança no seu querer e poder, que noutros tempos eu mesma possuía”.

Senhor, quão frágil é o coração humano quão débil é a Tua criatura, mas quando Tu Senhor Te manifestas no seu coração, quem poderá separá-la do Teu Amor?Quem ousará competir com a força Redentora da Tua Cruz?
Quem poderá apagar a luminosa certeza de que o Amor vence todas as trevas e as sombras da morte?
Porque Tu Senhor Te mostras como Verbo Eterno, o Amor do Pai, Aquele por Quem todas coisas foram feitas e pelo qual tudo subsiste. Não há força maior, não há doçura maior, não há paz maior, do que a de nos conhecermos em Ti e de Te conhecermos em nós.
Em Ti e contigo não há cruz que não se abrace, não há obstáculo que não se ultrapasse, dor que não se vença, porque Tu és a força mais poderosa que se esconde no interior de cada pessoa e eu creio na força do Teu Amor. Bendito sejas Eternamente.

Caminhamos para Ti

“Todos somos peregrinos que, conscientes ou inconscientemente, caminhamos para a eternidade”.
S. de Deus Ir. Lúcia de Jesus (1907- 2005) Apelos da Mensagem de Fátima.

Senhor, todos sabendo ou não sabendo, caminhamos para a eternidade, isto é, caminhamos para Ti.
A eternidade és Tu. Amar-Te, glorificar-Te por toda a eternidade, esse será o nosso empenho, o nosso ofício no Céu.
Sim, todos caminhamos para Ti, mas como é bom saber que caminho para Ti e não o fazer inconscientemente. Se é tão bom é também uma responsabilidade: a de me preparar para o céu, para o encontro tão esperado.
Diante da luz da eternidade como tudo se relativiza e toma proporções tão mais pequenas !
Os problemas tomam proporções menores, as dificuldades tomam a sua justa proporção….
À luz da eternidade como a vida se pode viver muito melhor!
Ajuda-me, Senhor, a viver como peregrino sem ganhar raízes nesta terra, mas no Céu.
Assim seja.as faltas

 

Não ficar a remoer
“Quando um irmão, cometia alguma falta, confessava a sua culpa e dizia a Deus:

“Não faria outra coisa se Tu me deixasses; depender de Ti evitar que caia e corrigir o que está mal”.
Depois disso não se preocupava mais com a falta”
Diz Frei Lourenço da Ressurreição (1614-1691).

Senhor, apesar do meu esforço, está na Tua mão eu não cair, porque “o justo cai sete vezes ao dia” como diz a Escritura.
Por mim não sou capaz de fazer o bem, mas com a Tua ajuda, sim.
E se peco, dá-me a graça de, como fazia aquele Irmão, não ficar a remoer nas faltas cometidas, mas lançar tudo no braseiro ardente do Teu Amor misericordioso.
Na verdade, não há falta suficientemente grande que o Teu amor não possa perdoar. Entrego-me a Tua graça para fazer o bem, fazer sempre a Tua vontade. Assim seja.

 

Doze degraus da virtude da humildade

S. Bento no cap. 7 da sua regra diz que o primeiro degrau da escada que leva para o Céu é a virtude da humildade, e só esta virtude já consta de 12 degraus. Sendo que a escada começa no grau mais imperfeito da humildade, até ao grau mais perfeito da mesma. Entretanto a escada oposta à da humildade é a do orgulho, também chamada de torre de Babel.

Segundo S. Bento iniciamos a subida da salvação assim:

12- MODÉSTIA NO PORTE –  ao assentar-se, no olhar, no vestir,  sem excessos até no rezar e no olhar para o céu mas sempre com simplicidade.
11- RESERVA NAS PALAVRAS – falando baixo sem gritar mas sempre com suavidade e serenidade no falar.
10- MODERAÇÃO NO RISO – não dando gargalhadas nem tendo riso ruidoso.
9- SILÊNCIO – não sendo falador mas só falando quando é mesmo preciso, não falar só ele mas dando a palavra aos outros, evitando mostrar falácia.
8- EVITAR MOSTRAR-SE – de maneira ou fazendo coisas extraordinárias que dêem nas vistas.
7- TER-SE SINCERAMENTE COMO O ÚLTIMO DE TODOS –  pensando sempre que os outros têm qualidades ainda melhores.
6- ACEITAR TUDO – aceitar com o coração, não ter tudo que gostava , os trabalhos e cargos, os mais difíceis ou mais baixos sem categoria ou valor, considerando-se ao serviço do Senhor.
5- SER CAPAZ DE MOSTRAR SUAS FALTAS OU FALHAS – com modéstia, reconhecendo os seus pensamentos, atitudes e acções que seu superior não conhece.
4- TER PACIÊNCIA – nas coisas difíceis e custosas como injúrias, humilhações dos superiores, etc.
3- SER OBEDIENTE AOS SUPERIORES –  o que custa mais do que ser obediente a Deus.
2-OBEDECER À VONTADE DE DEUS. – em tudo e não apenas no mais fácil e agradável.
1- TER TEMOR DE DEUS – que é ter amor respeitoso, não desejando ofende-Lo nunca, de nenhuma forma.

Diz S. Bento:- “Irmãos, a Escritura divina nos clama dizendo:- “Todo aquele que se exalta será humilhado e todo aquele que se humilha será exaltado”. Indica-nos com isso que toda a elevação é um género da soberba, da qual o Profeta mostra precaver-se quando diz: – “Senhor, o meu coração não se exaltou, nem foram altivos meus olhos; não andei nas grandezas, nem em maravilhas acima de mim. –  Mas, que seria de mim se não me tivesse feito humilde, se tivesse exaltado minha alma”.

Se, portanto, irmãos, queremos atingir o cume da suma humildade e se queremos chegar rapidamente àquela exaltação celeste para a qual se sobe pela humildade da vida presente, deve ser erguida, pela ascensão de nossos actos, aquela escada que apareceu em sonho a Jacó, na qual lhe eram mostrados anjos que subiam e desciam. – Essa descida, sem dúvida, outra coisa não significa, para nós, senão que pela exaltação se desce e pela humildade se sobe.  – Essa escada erecta é a nossa vida no mundo,a qual é elevada ao céu pelo Senhor, se nosso coração se humilha.  – Quanto aos lados da escada, dizemos que são o nosso corpo e alma, e nesses lados a vocação divina inseriu, para serem galgados, os diversos graus da humildade e da disciplina.”

Assim resumindo diz S. Bento: – Assim , pois, o primeiro degrau da humildade é ter sempre diante dos olhos o temor de Deus, fugindo em absoluto do esquecimento dos preceitos de Deus e suas ordens…, lembrando sempre dos seus pecados que o podem levar para o inferno, mas também que a vida eterna está preparada para os que temem a Deus; e, defendendo-se a todo o tempo dos pecados do vícios, isto é, dos pecados do pensamento, da língua, das mãos, dos pés e da vontade própria, como também dos desejos da carne, considere-se o homem visto do céu, a todo momento, por Deus, e suas acções vista em toda a parte pelo olhar da divindade e anunciadas a todo instante pelos anjos.

O segundo degrau da humildade consiste em não amar a vontade própria, nem se comprazer na satisfação dos seus desejos, mas antes em imitar em seus actos aquela palavra do Senhor:”Não vim fazer a minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou”.
O terceiro degrau da humildade é submeter-se, por amor de Deus, ao superior, com toda a obediência,à imitação do Senhor, de quem diz o Apóstolo; “Fez-se obediente até à morte.
O quarto degrau da humildade consiste em (monge), no exercício da obediência, nas coisas duras e adversas e ainda quando lhe sejam infligidas toda a espécie de injurias, silenciosamente de alma e coração abraçar a paciência, mantendo-se firme, sem fraquejar nem recuar, pois a Escritura diz: “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo”.

O quinto degrau da humildade consiste em não ocultar ao seu abade, com humildade confissão, todos os maus pensamentos que lhe vierem ao coração, bem como as faltas que secretamente houver cometido.

O sexto degrau da humildade é sentir-se o monge contente com tudo o que é vil e ínfimo, e para tudo quanto lhe mandarem fazer, julgar-se mau e indigno operário, dizendo com o Profeta: “Estou reduzido a nada, e nada sei; tornei-me como um irracional na vossa presença; mas estou sempre convosco”.

O sétimo degrau da humildade é não só dizer-se de boca o último e o mais vil de todos, mas também julga-se tal por um sentimento íntimo do seu coração, humilhando-se e dizendo como o Profeta:”Ora eu sou um verme e não homem, o opróbrio dos homens e a abjecção do povo; fui exaltado, e depois humilhado e confundido”.

O oitavo degrau da humildade é nada fazer o monge fora do que é prescrito pela regra ou recomendado pelo exemplo dos mais velhos.

O nono degrau de humildade consiste em o monge coibir a lígua de falar e, fiel à virtude do silêncio, não dizer nada, enquanto não for interrogado, porquanto a Escritura nos ensina”falando muito, não se evita cair no pecado”, e que “o homem muito falador não vai bem encaminhado cá na terra”.

O décimo degrau da humildade é não ser fácil em pronto para o riso, pois está escrito:”É no riso que o insensato levanta a sua voz”.

O décimo primeiro degrau da humildade consiste em o monge, quando tiver de falar, dizer as coisas com delicadeza e sem riso, com humildade e gravidade, em palavras breves e ajuizadas e sem levantar muito a voz, conforme o que está escrito:” É pela sobriedade nas palavras que se conhece o sábio”.

O décimo segundo degrau da humildade consiste em o monge não só possui esta virtude no coração, mas ainda em a mostrar, pelo seu porte exterior, aos olhos de quem o vê. Ou seja em todo o lugar em que esteja, e em toda as situações que se encontre.( da Regra de São Bento, cd. de 1951, Mosteiro de Singeverga, pp. 20-26).
Jesus Cristo foi extraordinariamente discreto, falou aos homens de sua época apenas por três anos, mais de sua vida pouco sabemos, Ele nos aponta para uma vida humilde, ou seja sem propaganda extraordinária, com nossas obras em segredo, e nosso Pai que tudo vê nos recompensará. Pode perguntar-se, então, como é que nosso cristianismo há de constituir um testemunho? Vivendo uma fé viva em todas as circunstâncias com fidelidade, entusiasmo e amor fraterno. Jesus é o nosso modelo, a quem queria associar-se à sua obra, dizia:”Vem e segue-me” (Mc. 10,21). Segui-Lo era desaparecer, escutá-lo em segredo, reflectir e permanecer em silêncio. A mensagem é para nós hoje, uma vida oculta com Cristo  em Deus (Col.3,3). O silêncio no nosso dia a dia, leva-nos a uma união com Deus, e uma vida interior de reflexão e intimidade. É verdade que Jesus nos mandou dar testemunho, mas, se não tivermos vida interior, não poderemos fazê-lo. Muitas vezes confundimos apostolado com propaganda, de modo que, o nosso testemunho de fé fica sem efeito e não convencem os outros. Jesus conta mais com a nossa vida interior de oração e silêncio, do que com a nossa ostentação para ensinar os outros. A nossa conduta conta mais, edifica mais, porque irradiamos uma chama interior com atitudes concretas aos irmãos; afinal não passamos de meros instrumentos da graça de Deus.
(Mt. 6,1) “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens, para que vos vejam; de outro modo, não tereis recompensa diante do vosso Pai que está nos céus”.
(cf. Mt. 5, 14-16) “Que a vossa luz brilhe diante dos homens, não para que vejam as vossas obras, mas para que glorifiquem o vosso Pai dos céus, ao verem o vosso modo de agir”. É preciso entender a mensagem de Jesus que aconselha aos discípulos a ocultar-se no fazer o bem, ou seja sem propaganda pessoal, mas como conduta exemplar dos cristãos, a ser imitada. Coisa diferente de aceitar um louvor é procurá-lo, e é isso o que Cristo nos proíbe. Fazer o bem para atrair os olhares dos homens seria perder completamente a recompensa do Pai dos céus.(1 Cor. 10,31) “Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus”.

A vanglória é um perigo para aqueles que desejam ser humildes, é uma armadilha traiçoeira de desejo de estima dos outros. Quem procura o louvor dos homens é levado a querer passar por melhor do que na realidade é, e lança-se pelas vias tortuosas da hipocrisia. Para conquistar felicitações, pode ser tentado a adular  ou elogiar demasiadamente os outros, com a esperança de receber o mesmo tratamento ou a admiração que pretende; entretanto se não consegue retorno desejado, corroí-se por dentro com amarguras e ressentimentos, sente inveja e acha-se vítima de uma grande injustiça dos resultados melhores dos outros. O valor de nossas intenções e acções são aquelas que nos move para Deus, para adora-Lo e glorifica-LO.

O demónio não é capaz de resistir à humildade, os santos experimentaram com frequência as astucias do inimigo. Mais é a humildade que nos previne, sobretudo, contra a presunção e o desespero. São Tomás de Aquino diz que existem três meios que nos ajudam a repeli os assaltos de Satanás: a alegria espiritual, a oração ardente e o trabalho realizado com espírito de fé: “A alegria espiritual arma o homem contra Satanás, o louvor de Deus é uma força que contribui muito para repelir o diabo; o trabalho bem feito elimina o ócio, terreno propício para acção dos demónios”.
São Bernardo recomendava aos seus monges de tendência mais intelectual que se pusessem de joelhos e rezassem o terço sempre que se sentissem inclinados a envaidecer-se com suas realizações. O fundador da Opus Dei, José Maria Escrivá, com singela humildade, definia-se como um pecador que ama loucamente a Jesus Cristo.
A humildade nos ajuda a ter uma ideia clara de nós mesmos, somos um nada ou seja pequenas criatura sem grande importância, tolas e ridículas, necessitadas de Deus, nosso criador, infinitamente sábio e poderoso, que nos ama com um amor único, misericordioso, persistente, incansável e terno, disposto a ir até as últimas consequências, capaz de dar a vida por nós. Não há nada que possamos ocultar-lhe nem há nada que precisemos provar-lhe. Basta que lhe peçamos perdão pelas nossas faltas e pecados, mesmo aqueles mais escandalosos ou repetidos, Deus na sua infinita bondade nos perdoa, e não deixa de nos amar.

As coisa criadas louvam e falam de Deus à sua maneira:

FALA-ME DE DEUS!

Disse a amendoeira: fala-me de Deus!
E a amendoeira floriu.
Disse ao pobre: fala-me de Deus!
E o pobre ofereceu-me a sua casa.
Disse ao sonho: fala-me de Deus!
E o sonho fez-se realidade.
Disse à casa: fala-me de Deus!
E abriu-se a porta.
Disse a natureza: fala-me de Deus!
E a natureza cobriu-se de formosura.
Disse ao rouxinol: fala-me de Deus!
E o rouxinol pôs-se a cantar.
Disse a um guerreiro: fala-me de Deus!
E o guerreiro depôs as armas.
Disse à minha mãe: fala-me de Deus!
E a minha mãe deu-me um beijo na fronte.
Disse ao inimigo: fala-me de Deus!
E o inimigo estendeu-me a mão.
Disse a voz: fala-me de Deus!
E à voz não encontrou palavras.
Disse à Bíblia: fala-me de Deus!
E a Bíblia cansou-se de tanto falar.
Disse a Jesus: fala-me de Deus!
E Jesus ensinou-me o Pai Nosso.
Disse temeroso ao sol poente: fala-me de Deus!
E o sol ocultou-se sem nada dizer.
Mas, no dia seguinte, ao amanhecer, quando abri a janela, ele voltou a sorrir-me.
(Miguel Estradé (“A Descoberta”).

 

 

 

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